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A Biblioteca da Daniela

A Biblioteca da Daniela

O último livro a habitar a minha estante em 2016!

31.12.16, Daniela S.
Pois é, 2016 está a chegar ao fim. Foi um bom ano de compras e encomendas literárias, mas as leituras foram escassas, talvez devido à falta de vontade que sentia devido às aulas na Universidade. 2016 foi o ano em que continuei a minha transição de estudante do ensino secundário para estudante de ensino superior e encontrei desafios, mas consegui superá-los. Também no meu segundo ano encontrei mais obstáculos, mais complicados do que aqueles que enfrentei no primeiro ano, mas não foram impossíveis de serem superados. As escassas leituras também se devem a novos interesses, como novas séries televisivas, principalmente as séries sul-coreanas (vá lá, nada de me julgarem; aconselho-vos a verem, pelo menos, uma série dessas, que são fantásticas).

No entanto, espero que, em 2017, continue a adquirir muitos livrinhos! Ainda assim, o meu objetivo principal é o de ler mais. Pretendo melhorar a forma como concilio os estudos com a minha vida como leitora e blogger.



Sem mais demoras, aqui está a última compra literária de 2016:

Sinopse retirada do site da Bertrand:

«Então, fechei os olhos com força e fixei-me no que via. Esta era uma das coisas que fazia desde pequeno, que tinha descoberto por acaso e que imaginava ser eu a única pessoa a fazer no mundo. Fechava os olhos e via. Via o que se vê com os olhos fechados (...) Isto é o que se vê quando fechados os olhos e continuamos a ver: a cor negra e os pequenos seres de luz que a habitam. E não se consegue olhar fixamente nem para o negro nem para a luz. Os pontos ou as linhas ou as figuras de luz fogem da atenção. O negro é tão absoluto, tão profundo, tão infinito que o olhar avança por ele sem encontrar um lugar onde possa deter-se. Mas, naquela noite, comecei a distinguir algo dentro desse negro.»


Pode-se dizer que é uma oferta de Natal, pois usei algum do dinheiro que adquiri nesta quadra festiva.
Comprei o segundo romance de José Luís Peixoto, pois sempre tive curiosidade em ler um livro deste autor português. Além disso, quero ler mais livros de autores portugueses em 2017.



E vocês? Compraram/ leram muitos livros em 2016? Espero que sim!




Opinião: Prantos, amores e outros desvarios, de Teolinda Gersão

31.12.16, Daniela S.
Fotografia tirada num dia de intenso estudo focado na Sintaxe e Semântica do Português.


Prantos, amores e outros desvarios é uma antologia de Teolinda Gersão que foi publicada este ano, em outubro. Comprei-o porque iria ser feita uma apresentação deste livro cá, em São Miguel, mas acabei por não ir conhecer a autora, pois nesse dia estava esgotada devido à intensidade da vida universitária. Tive pena de não ir, mas li o livro na mesma, claro, e gostei muito da experiência.

O livro tem, ao todo, 14 contos sobre angústias, paixões, loucuras, desgostos, ou seja, tem muitos "prantos, amores e outros desvarios" à mistura.

Para facilitar a escrita da minha opinião, irei falar um pouco sobre cada conto de forma sucinta, até porque, quando falamos em contos, temos que ter cuidado para não dizermos tudo o que se passa na história.


1º conto- "Pranto e riso da noiva assassina": Como entrada desta "refeição" literária deliciosa, temos um conto sobre a morte de um homem provocada pela própria esposa. Ou talvez não? É uma história sobre a impossibilidade de o ser humano controlar o seu próprio destino e sobre a vida como uma inconstante. Retrata, ainda, a insanidade da mulher que, por se sentir frustrada por viver um casamento sem amor, diz ter assassinado o marido. Acabamos por sentir compaixão por ela, mas sabemos que o que ela fez (ou não?) não é o mais correto, mesmo que ela se sinta muito infeliz. É, então, um conto sobre um desvario. 
Classificação: 4/5 estrelas.


2º conto- "Pranto da mãe mentirosa": É-nos apresentada uma mãe que se encontra desesperada ao ver um filho doente e pede a Nossa Senhora que o cure, dizendo que, em troca, daria uma cabra em sua honra. No entanto, ela acaba por não dar nada e o filho morre. É um conto sobre as injustiças e a fragilidade da vida,  e o amor materno, mas também sobre a esperança. É um dos meus contos favoritos, pois tocou-me imenso. É um conto humilde e cheio de dor.
Classificação: 5/5 estrelas.


3º conto- "As mimosas": As mimosas, ou acácias, são árvores que, neste conto, têm um caráter simbólico, por serem bonitas, mas, ao mesmo tempo, eram como uma "ameaça", pois invadiam a casa onde se encontrava Luísa, a personagem principal. É-nos dada a conhecer a vida complicada de Luísa, que tem uma mãe acamada e, por isso, passa grande parte do seu tempo com ela. É uma mulher que, apesar de sentir pena da mãe e querer ajudá-la, sente-se presa a ela. No entanto, rapidamente mudamos de perspetiva, mas não posso contar mais, porque este conto acaba por ser especial por causa dessa mudança repentina. Posso dizer que retrata muito bem a velhice, na medida em que muitos filhos se sentem presos aos seus pais, mas sabem que eles não têm culpa. Pretende-se mostrar que a velhice pode ser triste se a virmos apenas como uma carga de trabalhos. Temos que valorizar os mais velhos, pois, um dia, já cuidaram de nós.
Classificação: 4/5 estrelas.


4º conto- "Detrás dos sonhos": Esta pequena história retrata os problemas que podem ocorrer num matrimónio. Um elemento do casal vive alienado, não dá atenção ao outro e o outro procura amor e refúgio noutro sítio. Ainda assim, o segundo elemento sente pena por ver o amor a desvanecer. Mostras-nos que deveremos dar valor à realidade e não apenas aos sonhos. Também percebemos que, por vezes, é melhor deixarmos o outro partir para não magoarmos a nós mesmos. Por vezes, isso não faz mal, são coisas da vida.
Classificação: 4/5 estrelas.


5º conto- "O meu semelhante": É sobre uma mulher que justifica as suas ações e decisões dizendo que tem uma vida complicada e, por isso, não pode ajudar os outros. É uma história que mostra a sociedade em que nós vivemos. Olhamos demasiado para o nosso umbigo e acabamos por ser rudes e egocêntricos ao vermos o outro em apuros. A lição retirada daqui é que deveríamos viver numa sociedade cujos alicerces deveriam ser a entreajuda e a solidariedade, por exemplo.
Classificação: 4/5 estrelas.


6º conto- "Jogo Bravo": Temos aqui um conto interessante, pois é feita uma comparação entre o ato sexual e um jogo de futebol. Apesar de ter sido estranho para mim ler algo deste género, e também porque foi um tema e uma abordagem inesperados, é um conto que tem a sua graça.
Classificação: 4/5 estrelas.


7º conto- "Uma tarde de Verão": Temos o reencontro de dois ex-amantes, ambos seguiram com as suas vidas, mas sofreram ao longo dos anos. Por um lado, temos uma pessoa que gostaria de reatar a relação, mas por outro temos alguém que prefere não voltar ao passado. É um conto que nos mostra as vicissitudes da vida, isto é, somos seres dependentes da mudança e não faz mal querer continuar a olhar para o passado; porém, não nos podemos esquecer do presente e daquilo que aprendemos com os erros passados.
Classificação: 4/5 estrelas.


8º conto- "Mal-entendidos": Mais uma vez, temos um retrato de como a velhice pode afetar uma família. Neste caso, temos um filho que sempre teve uma relação distante com a mãe, que não o apoiava muito. Mesmo assim, ele ama a mãe e tenta ajudá-la. Contudo, ela não facilita e o estado dela não é a desculpa. É simplesmente a maneira de ser dela. Apesar do assunto representado, foi um dos contos que menos mexeu comigo.
Classificação: 3.5/5 estrelas.


9º conto- "Vizinhas": Este conto comoveu, pois fala de duas vizinhas que tinham laços de amizade muito fortes na juventude, mas tudo mudou quando cada uma constitui a sua própria família. Mas o destino é traquinas e juntou-as novamente na velhice. Ela sentem-se como um fardo para as suas famílias e decidem que o melhor é deixar o mundo, mas juntas. Comoveu-me não só pelo seu caráter triste, mas também porque mostra que a amizade, quando é verdadeira, dura para sempre.
Classificação: 4.5/5 estrelas.


10º conto- "A mulher cabra e a mulher peixe": Aqui temos mais uma história estranha. É narrada por um homem já vivido que, pelos vistos, conta a sua experiência com mulheres a um rapaz. O homem diz que só dois tipos de mulheres é que se destacaram ao longo da vida dele, a mulher cabra e a mulher peixe, e ele explica porque é que as chama assim e faz comparações entre elas. Acaba por ser um conto machista, mas ainda bem que o é, para mostrar como o machismo é que mancha a figura das mulheres e não as próprias mulheres.
Classificação: 3.5/5 estrelas


11º conto- "Água-marinha": Temos outra vez uma mulher com idade um pouco avançada, mas a história não se centra tanto no facto de ela ser idosa. Ela recebe na sua casa um homem que lhe quer entregar um anel que o pai dele tinha consigo. O pai, antes de falecer, pediu-lhe que ele entregasse o anel, o água-marinha, à dona legítima. Depois temos a mulher a falar no anel que, apesar de ter sido barato, o que importou foi que ele simbolizava a beleza do amor entre duas pessoas que viviam o auge da sua juventude. É um conto enternecedor.
Classificação: 4.5/5 estrelas.


12º conto- "Décimo Mandamento": É um conto que retrata a religião vivida de forma extrema. É-nos apresentado um homem que reza muito e castiga-se a si próprio por cometer pecados, mas continua a cometê-los na mesma. Retrata a hipocrisia e a ganância, pois o homem, que é rico, acaba por invejar um mendigo que saboreia alegremente uma costeleta. O rico acaba por, de certa forma, sentir-se invejoso do pobre. Aliás, o décimo mandamento é "não cobiçarás coisas alheias" e ele foi bem reformulado neste conto.
Classificação: 4/5 estrelas.


13º conto- "Enredos": Aqui está um conto que caracteriza bem o povo português, ou, pelo menos, uma parte dele: as pessoas que parecem ter como sustento os enredos. Vemos como a ignorância e o preconceito podem afetar negativamente uma pessoa, na medida em que ela só pensa nos pontos negativos dos outros e só gostar de falar mal dos outros. 
Classificação: 3.5/5 estrelas.

14º conto- "Alice in Thunderland": Este é o meu favorito, pois aborda um lado diferente da verdadeira inspiração de Lewis Carroll (pseudónimo do reverendo anglicano britânico Charles Lutwidge Dodgson) ao escrever Alice's Adventures in Wonderland. Sabe-se que Dodgson tinha atitudes pedófilas e escreveu a história anteriormente mencionada tendo como inspiração uma menina de 11 anos, Alice Lindell. O pior disto tudo é que parece que toda a gente prefere fingir que a obra foi escrita de forma inocente e que nada aconteceu à criança. No entanto, este conto pretende mostrar a verdade nua e crua acerca de Lewis Caroll. Mas não se centra na figura dele, dando importância a Alice. Temos uma perspetiva triste e forte da vítima, uma criança que não percebia o que acontecia sempre que se encontrava com o reverendo, uma jovem que se sentia nojo de si própria, uma mulher que viveu toda a sua vida sabendo que tinha sido a inspiração para um homem doentio e perverso. É, para mim, o conto mais triste e mais realista desta antologia e surpreendeu-me e tocou-me profundamente. Infelizmente, são muitas as crianças que passam por estas situações graves e acabam por ter uma autoestima extremamente baixa e praticamente inexistente, pois pensam que não merecem ser amadas e sentem nojo de si próprias. É um conto que deve ser lido por todos e que nos faz entender que, muitas vezes, a vítima, com uma vida destruída, vê que o culpado nem sempre é visto como um criminoso pela sociedade. É como se o mundo dissesse que a vítima é que cometeu um erro e não a pessoa doentia.
Classificação: 5/5 estrelas. Um conto poderoso.


Em suma, Prantos, amores e desvarios é uma antologia repleta de grandes e valiosas lições de vida e contém histórias muito comoventes. A escrita é simples e cativante, mas também muito madura. Espero ler mais livros de Teolinda Gersão em breve.


Classificação geral: 4/5 estrelas.







Opinião: Viver depois de ti, de Jojo Moyes

30.12.16, Daniela S.



Viver depois de ti (no original, Me Before You), de Jojo Moyes, é um romance contemporâneo que aborda temas controversos, mas importantes, como a eutanásia. É um livro que ensina que há mais na vida do que a doença ou uma deficiência, mas também é necessário reconhecermos que nem tudo pode ser um mar de rosas, mesmo que o amor esteja presente nas nossas vidas. Mostra, ainda, que não faz mal sermos pessoas pacatas, mas deveremos, ainda assim, explorar o que nos rodeia. É, então, um romance que mostras as injustiças que podemos enfrentar ao longo da vida, embora também mostre que haverá sempre uma luz no fundo do túnel, mesmo que essa luz não seja o que nós esperávamos alcançar.


O enredo foi muito bem desenvolvido ao longo das páginas. No início, vemos como uma das personagens, Will, acabou por ficar paraplégico. De seguida, mudamos imediatamente de perspetiva e foca-se na outra personagem principal, Louisa, que, ao procurar por um novo emprego, vai parar à casa de Will, onde ela é contratada para cuidar dele. Louisa sempre soube que seria uma experiência complicada, mas decidiu aceitar o emprego na mesma, pois pensava que iria ser gratificante. No entanto, reparamos logo nas disparidades entre duas personalidades tão distintas. Por um lado, temos Will, que se sente frustrado por se sentir preso no seu próprio corpo, por outro temos Louisa, que é desajeitada e tenta sempre ver o lado positivo da vida. A jovem, sempre muito esperançosa, tenta animar Will, organizando programas com atividades ideias para ele, mas Will não tem vontade nenhuma. E é aí que o leitor começa a sentir a mensagem do livro a entrar no seu coração. A autora, neste livro, decidiu mostrar que a eutanásia não é uma decisão tomada de ânimo leve, mas, por vezes, acaba por ser a "melhor" solução, na medida em que o paciente sente que já não está a viver e apenas sente dor. Portanto, não seria melhor ouvir a outra pessoa, aquela que está mesmo a sofrer? Ainda assim... Será que é melhor desistir? Não há esperança? Já não vale a pena lutar se a pessoa em questão já não quiser viver? Louisa fica destroçada ao saber da decisão de Will e faz tudo por tudo para mostrar que a vida dele ainda não acabou. Contudo, será que ela deveria ignorar o que Will realmente quer?


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Emilia Clarke como Louisa Clark.

A eutanásia foi, é e sempre será um tema complicado. Muitos defendem que a vida é sagrada e que o ser humano não deveria agir como uma entidade divina. Outros dizem que ainda pode haver felicidade e esperança numa vida limitada. E alguns dizem que, realmente, se a pessoa está a sofrer e sente-se presa, talvez seria melhor reconsiderar a morte como o fim da dor. Deste modo, como sabemos o que será o mais correto? Vale mesmo a pena ouvir somente a opinião daqueles que estão a sofrer? Não estarão eles a serem egoístas? Eu não gosto de pensar assim, até porque esta decisão não é tomada de ânimo leve, como já referi. A pessoa simplesmente sente-se cansada. Moyes retratou bem essa situação. Will era independente, tinha um espírito rebelde e amava a vida, porém, sente-se vazio por estar preso a uma cadeira de rodas. Por sua vez, a autora também fez um excelente trabalho ao criar a perspetiva de quem vive a situação externamente, como Louisa e a família de Will. O pai dele acaba por, de certa forma, aceitar a decisão do filho, mas a mãe, a irmã e Louisa tentam sempre mostrar que a morte não é a resposta. Todavia, Will não quer viver mais. Sente-se saturado e, apesar de amar a sua família e, eventualmente, Louisa, ele já não aguenta mais. É claro que, neste caso, o leitor pensa que o livro tem uma mensagem negativa, ou seja, que, afinal, o amor não ultrapassa qualquer obstáculo, mas também entende que, por vezes, não há explicações possíveis ou armas suficientes para usarmos na luta que é a vida.


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Sam Claflin como Will Traynor e Emilia Clarke como Louisa Clark


Mas nem tudo é negro neste livro. Will pode já não querer viver mais, mas quer ver Louisa a ser mais rebelde. Louisa pode ter uma personalidade peculiar e estranha, mas é muito pacata. Talvez seja ela a pessoa que não está realmente a viver. Will, nos seus últimos meses de vida, decide mostrar que Louisa ainda pode brilhar. E a magia do livro centra-se nisso mesmo: um homem que perdeu a esperança na vida e quer mostrar a outra pessoa que a vida pode ser bela. É por isso que Will decide recorrer à eutanásia. Ele está contente com a vida que teve e não quer manchar a sua existência por causa da sua dependência física. Para uma pessoa que não se sinta limitada, a decisão de Will pode parecer catastrófica, mas será mesmo? Afinal, quem sabe realmente o que é melhor para a nossa própria vida? Will teve uma boa vida e Louisa ainda não viveu o suficiente. Ambos aprendem muito um com o outro e chegam a uma conclusão: sim, a vida pode ser bonita e alegre, mas também pode fazer-nos sofrer. No entanto, no fim, tudo vale a pena.



Para não me alongar mais, quero só dizer que a escrita da autora é simples e leve e, por isso, ideal para abordar um tema tão sensível e complicado como a eutanásia. Porém, apesar da escrita e do tema debatido de forma cuidada, acabei a leitura sem lágrimas. Eu senti o que as personagens sentiram, mas ainda faltou qualquer coisa. Como disse, o tema foi, de facto, debatido, mas não tanto quanto queria. Mas entendo que a autora se tenha centrado mais nos modos de vida de cada personagem e não apenas no assunto em si. Aliás, ao termos duas perspetivas diferentes, temos uma história mais rica que nos poderá fazer refletir mais e a mensagem está lá na mesa.


Concluindo, Viver depois de ti vai mexer com a alma de qualquer leitor e fá-lo-á pensar. O melhor a fazer é viver a vida ao máximo, mas também seria bom ouvirmos a opinião do outro, pois cada um sabe como encara a vida. 


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Gif com cenas da adaptação cinematográfica do romance de Jojo Moyes.

Classificação: 4/5 estrelas



Opinião: Rainha Vermelha, de Victoria Aveyard

30.12.16, Daniela S.



Rainha Vermelha foi o romance de estreia de Victoria Aveyard e insere-se na categoria de livros de Fantasia, com um toque distópico, para jovens-adultos. Estamos perante um mundo que é separado de acordo com a cor do sangue. Os Prateados são a realeza e a nobreza e possuem capacidades sobrenaturais, enquanto os Vermelhos são o povo que vive na pobreza e no sofrimento, trabalhando arduamente para garantir o sustento dos Prateados. A personagem principal, Mare, uma jovem de 17 anos, pertence à classe dos Vermelhos e apenas consegue sobreviver como ladra. No entanto, ela acaba por ir parar à corte prateada, pois ela descobre, perante os Prateados, que também tem um poder sobrenatural. Para não causar transtornos entre os Prateados e para não originar revoltas entre os Vermelhos, o rei decidi que Mare deve fingir ser uma princesa Prateada desaparecida e que conseguiu voltar para o mundo dos Prateados. Por isso, Mare passa a viver como uma Prateada, mas também como uma espia, uma vez que se junta à Guarda Escarlate, uma rebelião dos Vermelhos que pretende mudar o mundo em que vivem. Deste modo, será que o poder dela é uma salvação ou uma 
perdição?




A ação não é propriamente original. Fez-me lembrar outros livros, como Os Jogos da Fome, Alvorada Vermelha e Divergente. Ainda assim, a história conseguiu prender-me. Tal como nos livros mencionados, gostei de ver que a luta pela igualdade e pela liberdade não foi colocada em segundo plano, como algumas vezes acontece quando a história envolve adolescentes como pessoas revolucionárias. Ou seja, muitas vezes, os autores que têm como público-alvo os mais jovens tendem a ter como plano principal uma relação amorosa e, assim, parece que se esquecem do verdadeiro rumo da sua própria história. Portanto, neste aspeto, ainda bem que Aveyard se centrou na vertente mais sociopolítica, embora já haja muitas histórias em que a personagem principal é o elemento catalisador de uma revolta. Contudo, gostei do desenrolar da história. Temos as perspetivas dos dois tipos de vida e acabamos por ter um bom contraste. Também achei engraçado a semelhança com o X-Men (uma história da Marvel que conta as aventuras de um vasto grupo de humanos mutantes, os X-Men, que nascem com habilidades únicas e sobre-humanas), na medida em que cada Prateado tem um poder impressionante e completamente diferente. Esses aspeto foi bem incorporado e torna esta sociedade mais fascinante. A autora acaba por conjugar, de certa forma, características dos livros da Fantasia com os da Ficção Científica, o que confere a originalidade que falta no enredo como um todo.
Um outro bom aspeto é a mensagem que é passada ao leitor. Será que deveremos ignorar o mundo em que vivemos e continuar a olhar para nós próprios como uns coitados que nada podem fazer? Ou será que podemos mudar alguma coisa? Será que aqueles que estão no poder estão sempre certos? A mensagem que nos é passada é que a determinação e a força coletiva são armas importantíssimas para mudarmos o mundo para melhor.



12 Ominous Quotes from RED QUEEN by Victoria Aveyard | Blog | Epic Reads:
"Essa vida já eu vivi, na lama, nas sombras, numa cela, num vestido de seda. Jamais me submeterei de novo. Jamais deixarei de lutar."

As personagens são o ponto forte do livro. Cada uma tem uma personalidade única e a melhor parte é que não temos um grupo que é totalmente bom, nem um grupo totalmente mau. Todas as personagens têm as suas qualidades e os seus defeitos. Mare é movida pela raiva que sente pelos Prateados, mas é capaz de perceber que há algo maior do que ela à sua frente e usa a sua nova habilidade para lutar pelo bem comum. Ainda temos uma personagem que engana muito bem todos, e até o próprio leitor, fazendo-nos querer ler mais e mais para descobrir os verdadeiros motivos dessa mesma figura. Deste modo, a autora elaborou personagens surpreendentes, tornando a história mais empolgante. Um outro aspeto que é também importante realçar é o papel das mulheres como grandes lutadoras e, até mesmo, líderes, já que, por vezes, neste tipo de histórias, os homens acabam por ser aqueles que desempenham um papel fulcral. No entanto, foi bom ver mais do que uma mulher a liderar ou a planear, quer em prol do bem, quer em prol do mal.



Por fim, a escrita de Aveyard é absorvente e, por isso, deixa-nos viciados. A autora sabe como passar as suas mensagens de uma maneira simples e eficaz e isso é fulcral em livros de teor distópico. 

“I have lived that life already, in the mud, in the shadows, in a cell, in a silk dress. I will never submit again. I will never stop fighting.”:
Fanart.
Em conclusão, Rainha Vermelha é um bom começo de uma nova série com uma mensagem forte e inspiradora. Pode ser um parecida ao ser comparada com outras coleções literárias, mas tem personagens marcantes e uma escrita cativante. Pode parecer ser fraca a leitores de Fantasia e de livros distópicos com mais experiência, mas irá surpreender os principiantes.


Classificação: 4/5 estrelas





Opinião: Eu dou-te o Sol, de Jandy Nelson

28.12.16, Daniela S.


Eu dou-te o Sol, de Jandy Nelson, é um romance contemporâneo para jovens-adultos que tem como personagens principais dois irmãos gémeos falsos, Noah e Jude, que passam por momentos difíceis, quer a nível pessoal, quer a nível profissional.
Noah é um rapaz introvertido que sempre viu o desenho como um refúgio e, por isso, ele anseia por ir para uma grande escola americana de artes. Jude é uma jovem com um espírito mais rebelde e que tenta viver a vida ao máximo. Tal como o irmão, ela também é uma artista, pretendendo vir a ser uma grande escultora. Os irmãos tinham, então, uma ligação especial, não só por serem gémeos, mas também por terem os mesmos interesses, apesar das diferenças quanto às personalidades. Contudo, os segredos que cada um guarda para si e as tragédias que afetam a família irão afetar a relação fraternal estas duas personagens.



Fanart

O enredo é magnífico. Não posso revelar muito, pois a magia centra-se nos tais segredos e problemas que eu mencionei anteriormente. Posso dizer que este livro é muito importante, na medida em que aborda temas como o preconceito, a sexualidade, a descoberta de si mesmo numa fase tão frágil como a adolescência. Valoriza-se o amor como uma força que move o mundo e a alma de cada um, a amizade como um apoio nos momentos mais difíceis, a família como um quebra-cabeças complicado, mas que é impossível não amar. Valoriza-se também a arte como um elemento indispensável nas nossas vidas. Afinal, a vida é arte e arte é vida. Portanto, é um livro que deve ser lido por todos, mas principalmente pelos jovens-adultos, o público-alvo, pois vão perceber que este romance é como um reflexo deles. Eu senti-me assim, principalmente em relação à importância que é dada à arte nesta linda história.

O enredo não teria sido tão tocante se Nelson não tivesse criado personagens tão únicas e diversificadas como Noah e Jude. Eles são como a lua e o sol, mas formam um eclipse lindíssimo. Senti uma grande compaixão por Noah, que está a tentar encontrar-se a si próprio num mundo tão cinzento que prefere afastar as pessoas diferentes. A sua paixão pelo desenho é tocante, bem como a forma como a arte está sempre tão presente no dia-a-dia dele. Ele respira arte e ele não pode viver sem os lápis e as cores, isso é inadmissível no mundo dele. Adorei, ainda, a bravura dele, pela maneira como ele enfrentou os obstáculos impostos pela adolescência e pela sociedade. Ele descobre que é homossexual e explora isso através do desenho de uma forma brilhante. Ele é um exemplo para os adolescentes da comunidade LGBTQ que se sentem sós e presos.
Jude foi a personagem que eu mais gostei. Ela é muito excêntrica. Ela adora escultura e, tal como o irmão, ela tem uma alma de artista. Adoro a maneira como ela abraça a sua personalidade peculiar, principalmente porque ela aprendeu que não deveria aceitar as normas impostas pela sociedade conformista. Também gostei muito de conhecer os seus segredos mais obscuros e, por os ter enfrentado, também admiro a coragem dela. Ela aprendeu a confiar e a amar outra pessoa, mesmo depois de ter passado por uma fase confusa e repleta de dor.
Ao contrário de outros romances de jovens-adultos, as personagens mais velhas estão bem presentes no livro de Nelson. Jude, para ser uma melhor escultora, acaba por ter como mestre Guillermo Garcia, um escultor extravagante que também teve uma vida cheia de buracos pela estrada. Ele terá um forte impacto nas vidas dos gémeos e ele irá mostrar que os adultos também podem ter os mesmos problemas que um adolescente tem.
Assim, penso que Jandy Nelson criou personagens fantásticas e invulgares que, ainda assim, irão tocar o coração de qualquer leitor.

Por fim, a escrita, tal como o enredo e as personagens, é fenomenal. É poética, é colorida e aquece a alma. É tão simples, mas tão única ao mesmo tempo. Não há mais ninguém que escreva assim, de certeza. É como uma brisa fresca do Verão, faz-nos sentir tão bem. Faz-nos sentir e pensar. Faz-nos querer viver. Jandy Nelson tem um talento puro e pretendo saborear mais a escrita dela.


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"O que é mau para o coração é bom para a rte. É a terrível ironia das nossas vidas como artistas". Tradução livre.


Em suma, Eu dou-te o Sol é um romance que merece ser lido, discutido e, principalmente, apreciado e amado. É um livro cheio de amor, de vida e de cores, as frias e as quentes. E é lindo. Lindíssimo. Aconselho vivamente a leitura deste romance delicioso. E é ideal para aqueles que respiram arte.


Classificação: 5/5 estrelas



Opinião: Os 100, de Kass Morgan

27.12.16, Daniela S.


Os 100 é o primeiro volume da trilogia de ficção científica de Kass Morgan. É-nos apresentada a Colónia, uma comunidade de seres humanos que conseguiu fugir a uma guerra nuclear que devastou a superfície terrestre. Os sobreviventes passaram a viver numa estação espacial que orbita o planeta Terra e têm esperanças que, um dia, voltarão a viver no planeta azul. No entanto, 100 anos depois, a estão espacial encontra-se desgastada e o oxigénio está a desaparecer. Por isso, o governo e os cientistas aprovaram o plano de enviar "cobaias" para o planeta Terra, a fim de verem se já era novamente habitável. Para isso, decidem enviar 100 jovens delinquentes que aguardavam por julgamento pelos crimes que tinham cometido. É a partir desta situação que temos pontos de vista diferentes de 4 jovens, sendo que 2 deles foram enviados para a Terra, um decidiu ir por livre vontade para defender quem mais ama e uma rapariga que ficou a bordo e que serve como forma de entendermos a grave situação vivida no espaço.



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A estação espacial na série inspirada no livro, The 100.


Como podem constatar, o livro tem uma boa premissa: o Sci-Fi é adorado por muitos, principalmente quando a história se situa num ambiente pós-apocalíptico e espacial. Contudo, penso que tudo isto foi "tapado" pela própria autora, na medida em que ela preferiu focar-se em relações amorosas cheias de clichés e dramas que vemos muitas vezes retratados em séries televisivas direcionadas para os adolescentes. A autora não soube aproveitar a componente criativa e foi um pouco desleixada. Atrevo-me a dizer que Morgan escreveu esta história num ambiente típico da ficção científica por motivos comerciais. A escritora queria destacar-se, na medida em que já há muitos autores a escreverem histórias amorosas e ela decidiu ser um pouco diferente e decidiu que queria atrair mais leitores. É claro que muitos livros de Sci-Fi incluem relações amorosas, mas a história de Morgan exagera... Houve momentos ideais para introduzir aspetos científicos ou abordar outros assuntos sem ser os problemas sentimentais da juventude, como o significado de se ser humano, o valor da amizade, da família e da lealdade, mas "tudo o vento levou". Portanto, quanto ao enredo, não há nada de especial. O livro pode ser facilmente ignorado pela comunidade de leitores de ficção científica, pois não retrata nada de novo e está repleto de clichés.



As personagens são, como o próprio enredo, sensaboronas, principalmente os adolescentes. Ainda assim, também não gostei de nenhuma personagem adulta, uma vez que elas estão praticamente ausentes. Mas, em relação aos adolescentes, achei-os enfadonhos. Aliás, a autora tem bem presente que ser adolescente significa ser um jovem rebelde que não tem um cérebro e que só pensa nas vicissitudes do amor. Foi rara a personagem mais jovem que não tivesse um conflito amoroso... Foi pena esta abordagem exagerada dos problemas amorosos, pois cada personagem tinha mais camadas que mereciam ser devidamente exploradas. Um dos 4 jovens principais, a Glass, passou por situações péssimas, que se agravaram devido às leis impostas na estação espacial, mas isso não foi muito bem explorado porque ela tinha um namorado, mas tinham terminado a relação e a escritora só quis retratar a parte em que Glass não queria saber de mais nada a não ser reconquistar o amor da sua vida... E as outras 3 personagens foram pelo mesmo caminho, praticamente. Deste modo, fiquei desapontada com a falta de desenvolvimento em relação às personagens.


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Parte do elenco principal da série The 100.


Penso que o que salva esta obra é a escrita, que, pela sua simplicidade, nos faz continuar a ler. Todavia, não tenho mais a dizer. Não é suficientemente especial para se destacar.



Concluindo, Os 100 é a abertura vazia e seca de uma trilogia que prometia muito, mas não nos dá nada. Nada de novo e nada de interessante. Ainda assim, pode ser um primeiro passo suficientemente bom para quem seja um principiante no mundo da literatura de ficção científica.


P.S- Talvez tenha criado expetativas elevas devido à série televisiva baseada na trilogia de Kass Morgan, também intitulada de Os 100 (The 100, no original). A série é espetacular e cativa-nos facilmente, ao contrário do livro. Portanto, aconselho a visualização da série.



Classificação: 3/5 estrelas (dou 3 porque gostei da escrita, senão, teria dado 2.5)