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A Biblioteca da Daniela

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Opinião: A Estação dos Ossos (#1 The Bone Season), de Samantha Shannon

31.03.19, Daniela S.


A Estação dos Ossos, de Samantha Shannon, é o primeiro livro de uma coleção de Paranormal com toques de Ficção Científica. Passa-se em 2059 e seguimos Paige Mahoney, uma jovem de 19 anos que trabalha no submundo do crime da Londres de Scion. Ela é uma caminhante de sonhos, ou seja, consegue invadir as mentes das pessoas e obter informações. No entanto, a sua existência é uma traição.
Um dia, é atacada, drogada, raptada e levada para Oxford, uma cidade secreta que é controlada pelos Refaim, uma raça poderosa que manda nos humanos. É aí que passa a ser vigiada pelo Guardião, alguém que é mais do que aparenta ser.
Quais serão os planos de Paige para sair de Oxford? Quem será realmente o Guardião?



Quando o livro foi lançado em Portugal, em 2013, a editora Casa das Letras aproveitou a estratégia de marketing da editora britânica de Shannon e decidiu realçar o que alguns críticos disseram acerca desta jovem autora: Samantha Shannon é a próxima J. K. Rowling.
No entanto, não concordo com essa afirmação. Não só é injusto colocar tanto peso nos ombros de uma mulher que, na altura em que publicou este seu primeiro livro, tinha 21 anos, como também não tem nada a ver com a coleção Harry Potter. É claro que, muita vezes, quando dizem que alguém será o "próximo", querem dizer que terá o mesmo sucesso do antecessor ou algo do género. Neste caso, a autora teve sucesso, mas não como Rowling.
Apesar disso, Shannon escreveu um primeiro livro estupendo.


A autora escreveu Aurora, o seu verdadeiro primeiro romance, aos 15 anos, mas o manuscrito foi rejeitado por várias editoras e nunca foi publicado. Penso que isso fez com que Shannon se esforçasse imenso num novo livro, A Estação dos Ossos, ao ponto de ter feito um contrato com a editora Bloomsbury, tendo ficado estipulado que iria escrever uma coleção de 7 livros e o pagamento consistiria num número com 6 dígitos. A sua escrita deve ter florescido durante esses seis anos em que não conseguiu publicar um romance, pois, neste livro, vemos um estilo cativante que nos faz pedir por mais. A presença de muitos detalhes sobre o mundo, a sociedade e o sistema mágico e paranormal que criou pode dificultar um pouco a leitura, na medida em que é possível haver alguma confusão e o leitor pode sentir que está perdido no meio de tantas ideias e tantos conceitos novos. No meu caso, não fiquei tão perdida quanto isso e é interessante ver como ela inclui informações novas. Deste modo, é um estilo que não permite o leitor divagar. O leitor fica preso à história. É uma escrita suculenta e viciante.

Quote from THE BONE SEASON by Samantha Shannon
Fonte: Pinterest.

O enredo não só foi bem orquestrado, como também foi bem desenvolvido. Há imensos livros sobre governos que castigam um determinado tipo de pessoas, que, depois, lutam pela sua liberdade de viver tal como são. Contudo, este livro ganha por ter de tudo um pouco. Há seres mágicos cruéis, há seres humanos poderosos, mas que têm de ser controlados. Há pessoas completamente normais a tentarem sobreviver um dia de cada vez. O sistema político e social é muito semelhante com momentos históricos tenebrosos e que, aqui, ganham contornos grandiosos e igualmente assustadores por haver elementos paranormais. Estamos perante um enredo que nunca é monótono. Muitas coisas acontecem em todos os capítulos e o leitor apenas sente vontade de virar a página uma vez, mais uma vez e mais. Depois, fica surpreendido por já estar a ler a última página.

A autora também soube inventar as personagens. Paige é rebelde, mas não é irracional. Tem inseguranças, mas também reconhece as suas forças. Faz-nos torcer por ela e sentimos na nossa pele o que ela sente. 
O Guardião é igualmente interessante. Há muitas personagens masculinas marcadas pelo mistério e pelo secretismo e ele é um deles. Mas ele também é surpreendentemente bondoso. Além disso, ele é essencial para o enredo, pois as aparências enganam.


Fonte: Pinterest.


Em conclusão, A Estação dos Ossos é um primeiro livro entusiasmante e prometedor. Seres sobrenaturais, poderes paranormais, um mundo onde o Fantástico e o distópico unem-se de forma perfeita. Adicionando a tudo isto uma escrita que facilmente nos cativa, Shannon mostra que entrou para o mundo editorial para ficar. 


Classificação: 5/5 estrelas.


Opinião: The Song of Achilles, de Madeline Miller

27.03.19, Daniela S.


The Song of Achilles (na edição da Bertrand Editora, O Canto de Aquiles), de Madeline Miller, é um reconto de Ilíada, de Homero, mas acompanha principalmente as personagens Aquiles e Pátroclo desde o momento em que o segundo é exilado para a terra do primeiro até ao fim da Guerra de Tróia. Por terem sido criados juntos, e apesar de terem personalidades quase opostas, os dois tornam-se inseparáveis, o que deixa a mãe de  Aquiles, a deusa Tétis, furiosa, pois sabe que Aquiles está destinado a grandes feitos. Tudo piora quando são convocados para a Guerra de Tróia. Quais serão os planos do Fado para estes dois jovens?


Mitologia grega, História e amor, quando bem conjugados, podem dar origem a um livro maravilhoso. Miller conseguiu fazer isso e, além disso, destaca-se de entre tantos outros autores que tentaram contar, à sua maneira, a história presente na Ilíada. Neste caso, a autora não parecia querer focar-se tanto nos aspetos bélicos, mas sim nas relações humanas e, por conseguinte, nas personagens. Isso é visível na sua escolha de narrador. Não é Aquiles ou um outro herói da epopeia que nos conta a história, mas sim Pátroclo, que aqui ganha uma personalidade muito diferente daquela que vemos nos filmes. Aliás, no próprio poema épico, ele é um guerreiro com grandes capacidades. Mas, neste livro, ele é um jovem sensato que, ao contrário dos restantes rapazes, prefere não estar envolvido em atos violentos (se bem que ele luta quando é necessário). Assim, é-nos narrada uma história de amor e de cumplicidade através de uma voz sensível e encantadora.

tumblr the song of achilles
Fonte: Pinterest

No entanto, é óbvio que não é um mar de rosas. Afinal, é uma adaptação de uma epopeia grega que dá importância à grande Guerra de Tróia. A autora mantém-se fiel à obra de Homero e às lendas mitológicas, incluindo no enredo cenas trágicas e violentas. É uma história de amor, mas sangrenta. É uma história de amizade, mas triste. É uma história marcada pela alegria e pelo sofrimento. Por isso, estamos perante um enredo bem construído que nos seduz, que nos entristece e que nos aquece com as suas passagens ora amorosas, ora cruéis.



A escrita de Miller é envolvente. Com as suas descrições elegantes, mas carregadas de dor nos momentos mais tristes, a autora mostra que tem a habilidade incrível de criar um livro atmosférico capaz de nos transportar para a Grécia Antiga e mostrar como a sociedade valorizava imenso a honra e a glória. Inova por ter optado em criar personagens extremamente humanas, principalmente em relação a Aquiles, o grande herói que é visto como um ser divino forte que não pode ser contrariado e está constantemente a provar o que vale. Aqui, ele é isso tudo, mas muito mais. Não é apenas o filho de uma deusa, é também um ser humano. Não é apenas um guerreiro, é também um rapaz que foi capaz de abrir o seu coração a alguém que antes era apenas um amigo. Miller prova que é possível trazer algo novo para algo que já existe e que é admirado por muitos. E prova isso de uma forma brilhante.


We were like gods at the dawning of the world, and our joy was so bright we could see nothing else but the other.   - Madeline Miller, The Song of Achilles
Fonte: Pinterest

Em suma, The Song of Achilles é a leitura ideal para os que adoram mitologia grega e a História Antiga. Também é perfeita para quem procura por um autor (neste caso, uma autora) com uma escrita bela, poética e cativante. É uma boa escolha para quem procura por uma história de amor arrebatadora.



Classificação: 4.5/5 estrelas




Opinião: Meridiano 28, de Joel Neto

24.03.19, Daniela S.
Autor: Joel Neto
Editora: Cultura Editora
ISBN: 9789898886194
1.ª edição: maio de 2018
Páginas: 424
Apresentação: Capa mole


Neste mais recente romance de Joel Neto, seguimos as demandas de José Filemom, que tenta realizar um pedido: escrever um livro sobre um tio seu, Hansi Abke, que, pelos vistos, foi um grande caçador de nazis, mas alguém que tinha uma relação minimamente estranha com o sobrinho. É ao ler os diários do tio que José não só irá aprender como foi viver no Faial durante a Segunda Guerra Mundial, como também irá conhecer um Hansi diferente. No entanto, o que foi que Hansi realmente fez no Faial? Qual é, de facto, o seu legado? Irá José mudar de ideias quanto ao tio?

Que bom encontrar um romance sobre a Segunda Guerra Mundial que tem como pano de fundo uma ilha açoriana. Gostei de aprender que Faial foi um lugar estratégico e fundamental para muitas vidas. Foi como um paraíso e um ponto de concórdia entre açorianos, ingleses e alemães. Estas lições históricas foram muito bem dadas ao longo deste trabalho de ficção. Temos factos verídicos que não nos são apresentados de uma forma muito cansativa, o que tende a acontecer em muitos livros de ficção histórica. Neste caso, estão presentes em doses suficientemente interessantes e que deixam o leitor curioso e fascinado nesta matéria.

Apesar destas pequenas aulas de História, não achei que o livro fosse tão cativante quanto isso. Gostei da escrita, sem dúvida alguma. Posso ter gostado de ler acerca do Faial nos anos 40, mas o ponto forte do romance é o estilo de escrita do autor. Sem rodeios e de fácil compreensão, o escritor foi muito hábil na mistura do presente do protagonista com o passado do familiar dele,  acrescentando passagens de diários que atribuem um caráter real à história. No entanto, a construção das personagens não foi bem sucedida. As personagens não têm grande profundidade e umas parecem existir só porque sim. Algumas existem mesmo para tentar colocar em destaque outras. Uma das amigas da personagem principal é um exemplo dessa criação fraca. Ela não trouxe nada de novo ao enredo e apenas existe para mostrar que José é muito boa pessoa. Até é possível sentirmos "pena" por ele , pois passa por certas situações e sente certos sentimentos por causa dela. E usei aspas, porque talvez tenha sido essa a intenção do escritor, mas não senti nada por esta personagem, nem pelas restantes. De facto, depois da primeira metade do livro, estava mais interessada no ambiente vivido no Faial naqueles anos horríveis do que nas personagens e nas suas vidas.

Quanto ao enredo, não é algo propriamente novo, a não ser o final. Até às últimas páginas, temos o que muitas vezes encontramos em livros que misturam História com o presente: alguém encontra objetos de um familiar e fica curioso em relação à vida desse familiar. Depois, vai para os lugares que o familiar frequentou e tenta reconstruir e entender a vida do mesmo. Ao mesmo tempo, esse alguém encontra semelhanças entre a sua vida e a do seu familiar. Por fim, aprende uma lição de vida. Tudo isto aconteceu neste livro (mas, claro, a ação não se resume ao que acabei de escrever). É, de facto, o final que é muito diferente de outros livros que têm este tipo de premissa. Quer dizer, um final onde tudo é revelado e percebemos que nem o que parece é também é comum na literatura, mas principalmente em thrillers. De qualquer forma, fiquei surpreendida ao ler os últimos capítulos, pois o que o autor escolheu fazer foi um grande risco. Como não quero dar spoilers (isto é, estragar a leitura a alguém), apenas posso dizer que muitos leitores odeiam sentir-se traídos ao verem que o enredo muda drasticamente e sem grandes motivos. Eu não fiquei zangada, mas achei interessante ao ver o escritor a aventurar-se desta forma. As personagens envolvidas nessas mudanças explicam-nas e achei tudo suficientemente plausível. Todavia, não são explicações magníficas e que nos deixam de boca aberta. Portanto, sim, penso que foi um risco acabar este romance a "enganar" os leitores.


Resumindo, Meridiano 28 consegue cativar-nos através dos conhecimentos históricos que nos transmite. Contudo, as personagens parecem ser um pouco vazias e não são tão fascinantes como eu pensava que seriam. Profundo em termos de investigação histórica, mas não quanto à autenticidade das personagens. De qualquer forma, Joel Neto tem um estilo de escrita apelativo e o livro, embora tenha um enredo familiar, está bem estruturado, ao ponto de me ter surpreendido com aquele final que pode ser um choque, mas isso depende de cada leitor. Curiosos?


Classificação: 3.5/5 estrelas