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A Biblioteca da Daniela

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Opinião: The Upside of Unrequited, de Becky Albertalli

30.06.20, Daniela S.



The Upside of Unrequited (na versão portuguesa, Os altos e baixos do meu coração), de Becky Albertalli, é um romance contemporâneo YA sobre Molly, uma rapariga de 17 anos que sabe imenso sobre o amor não correspondido. É gorda, tem duas mães e uma irmã gémea, Cassie, que se apaixona por uma rapariga. Quando Cassie começa a namorar, Molly conhece os novos amigos da irmã, como o Will, um rapaz engraçado, namoradeiro e que pode muito bem ser a nova paixão de Molly.
No entanto, Molly tem dúvidas quanto a isso, pois o colega de trabalho dela, Reid, um cromo que adora Tolkien, parece ser um rapaz espetacular e também.... Uma possível nova paixão de Molly! 
Tendo em conta a suas inseguranças e dúvidas existenciais que fazem parte da adolescência, como irá Molly lidar com este dilema?


Que história tão adorável e divertida! As personagens deste livro fazem parte do mesmo universo do primeiro livro da autora, O coração de Simon contra o mundo (podem ler a minha opinião sobre ele aqui). Se já leram esse livro, posso dizer-vos que a história de Molly também tem imensos elementos bons do primeiro livro, ou seja, podem contar com momentos divertidos e cheios de referências de cultura pop, bem como situações mais complicadas e típicas da adolescência. Além disso, Simon e os amigos dele até aparecem nesta história sobre diversidade, aceitação do corpo e a adolescência como uma fase de altos e baixos.


Em relação ao enredo, este é simples. As mães de Molly e de Cassie irão finalmente casar-se, pois o casamento gay já é legal. Cassie começa a namorar com Mina, uma coreano-americana pansexual. Com o amor no ar, Molly sente-se sozinha, pois já teve 26 paixões e nunca namorou, nem nunca deu um beijo. Ao conhecer Will, um amigo da namorada de Cassie, Molly sente que ele será mesmo o seu primeiro beijo, mas ela acha que também gosta de Reid, um colega de trabalho que é introvertido e gosta de cultura pop, principalmente dos livros de Tolkien. Portanto, é mesmo um retrato de muitos adolescentes: dúvidas sobre amores, inseguranças relativamente ao corpo devido aos padrões da sociedade, exploração e descoberta do eu. 


Fanart de Molly.
Fonte.


A escrita de Becky Albertalli, tal como no primeiro livro, é simples, refrescante e leve. Dá para ver o cuidado de Albertalli em escrever como se fosse uma adolescente. Não é uma escrita com palavras caras e com muitos floreados ao ponto de fazer o leitor adormecer a meio da leitura. A sua escrita é ideal para quem quer uma leitura rápida e, ainda assim, cheia de emoções, aventuras e obstáculos. Fiquei com a sensação de que estava a ler uma espécie de diário da protagonista, se bem que isto é um romance que não tem um estilo diarístico. Contudo, isso prova que Albertalli é uma escritora de histórias para adolescentes talentosa, sendo capaz de ter uma voz adolescente autêntica e jovial.


As personagens são muito diversificadas, quer quanto às suas personalidades (na medida em que cada uma tem a sua maneira de ser), quer quanto à presença de diversas sexualidades, como o caso das mães de Molly, Cassie e Mina, por exemplo. Mais do que nunca, é importante que diferentes sexualidades, géneros, raças, culturas, etc. tenham mais espaço na literatura. Albertalli é uma escritora que tenta ao máximo colocar no seu trabalho um pouco da nossa atualidade. Já não é aceitável uma literatura que só tenha personagens que correspondam ao padrão, isto é, personagens cis, heterossexuais, brancas. A nossa sociedade é mais do que isso e a literatura deve ser o reflexo dela.
Adorei a Molly, pois tem uma personalidade ternurenta e a sua ingenuidade doce faz-nos gostar dela. Além disso, pela primeira vez, leio um retrato de uma personagem gorda que não é muito negativa e que vai para além da imagem corporal. É verdade que ela é insegura e pensa muito no seu corpo, mas ela também é mais do que isso. Adora fazer coisas artísticas, é engraçada, é amorosa e gosta imenso de falar sobre livros, séries, etc. Há quem ache que o livro transmite ideias erradas porque Molly começa a sentir-se um pouco melhor quanto ao seu corpo quando começa a namorar, isto é, como se um namorado fosse a solução para quem não gosta de si próprio. Eu não acho isso. Acho que é uma coincidência vermos que ela já não se julga tanto quando arranja um namorado. Ela não começou a ver o corpo de outra maneira graças à magia do amor. Ela simplesmente tem mais momentos bons quanto à sua gordura do que maus. A negatividade continua, mas já não é tão vincada, pois há mais positividade corporal do que antes. Ao longo do livro, ela foi descobrindo quem era e, assim, viu que a sua vida era mais do que o pensamento negativo constante quanto ao seu peso. Nas interações com novos amigos, com a família e com o namorado, bem como nos momentos em que, sozinha, reflete um pouco sobre si mesma, ela percebe que o seu peso não é tudo na vida e que, na realidade, não deveria importar-se tanto com o que os outros dizem, uma vez que ela, lá no fundo, não odeia o seu corpo tanto quanto isso.
No geral, todas as personagens são muito interessantes e parecem ser reais, o que prova que a criação de personagens é um grande ponto forte de Albertalli. A autora também gosta de colocar um pouco de si nas personagens. Ao criar Molly, ela adicionou elementos que têm a ver com ela própria, como o peso e a ansiedade.


Os 27 crushes de molly ❤
Fanart de Molly e Reid.
Fonte.

Em conclusão, The Upside of Unrequited é um livro divertido cujos clichés estão bem inseridos e desenvolvidos, não sendo uma seca e igual a outros romances para os mais jovens. Penso que muitos adolescentes irão ver um pouco de si nesta história sobre a montanha-russa que é a adolescência.



Bertrand.pt - Os altos e baixos do meu coração
Edição portuguesa (Porto Editora).



Classificação: 4.5/5 estrelas.