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A Biblioteca da Daniela

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Opinião: A Very Large Expanse of Sea, de Tahereh Mafi

14.04.21, Daniela S.

 



 
A Very Large Expanse of Sea, de Tahereh Mafi, é um romance YA contemporâneo sobre uma americana muçulmana que, um ano depois do 11 de Setembro, está cansada dos estereótipos contra os muçulmanos. Shirin tem 16 anos e já nem fica surpreendida perante a crueldade dos outros. Contudo, está cansada dos olhares rudes, dos comentários degradantes e da violência física que sofre devido à sua religião e por usar hijab todos os dias. Portanto, ela é muito reservada e recusa deixar as pessoas entrar, pois podem magoá-la. Ela deposita as suas frustrações na música e pratica break-dancing com o irmão.
Depois, conhece Ocean James. Ele é a primeira pessoa, desde há muito tempo, que realmente quer conhecer Shirin. Conseguirá ela baixar a guarda?



Este livro tem de tudo um pouco: raiva, amor, tristeza, alegria, ódio, revolta, esperança, etc. É uma leitura que nos leva a pensar como os estereótipos são extremamente tóxicos, sendo capazes de tornar a vida de alguém insuportável. É um livro carregado de mensagens sociais, políticas, culturais e religiosas. Mas é, sobretudo, uma história sobre Shirin, uma rapariga muçulmana que tenta viver a sua adolescência de acordo com os sonhos que quer alcançar, mas sem, infelizmente, esquecer a sociedade que a rodeia.

É, de certa forma, baseado na própria vida da autora, que é uma mulher iraniano-americana muçulmana que, tal como Shirin, pratica break-dancing e usa o hijab. Os Estados Unidos após o 11 de Setembro são o cenário do livro. A autora quis recordar o ambiente em que os muçulmanos viviam (e ainda vivem) devido a feitos que nem sequer deveriam levar a generalizações injustas e violentas: as pessoas maltratavam, temiam e desrespeitavam os muçulmanos devido aos ataques que ocorreram em 2001. Ainda hoje, sofrem esses preconceitos.

O estilo de escrita é simples, jovial e forte na forma como as emoções da protagonista são expostas. Para além dos sentimentos e das opiniões que Shirin tem relativamente à islamofobia, também vemos o surgimento e o desenvolvimento de uma paixão, a luta pelos sonhos, as preocupações pelos estudos, as vivências familiares, as amizades, etc. Tudo isto é feito de forma natural e cativante graças à escrita da autora.
 
 
 
Wallpaper da Epic Reads para telemóveis.

 
As personagens foram bem construídas e cada uma delas tem a sua própria personalidade, ou seja, não são homogéneas e as suas diferentes formas de pensar e de agir enriquecem o livro. Shirin é, sem dúvida alguma, a personagem mais interessante e mais marcante. A sua garra  faz-nos torcer por ela e os seus sentimentos também são sentidos por nós, leitores. Sentimos a sua raiva, a sua alegria, a sua tristeza, o seu cansaço perante um mundo que é injusto para com ela. Algo importante quanto a esta personagem é o facto de a sua identidade como muçulmana não ser a única coisa referida ou evidenciada. Shirin é, também, uma adolescente com os típicos problemas de um jovem da idade dela. Não esperem ver os estereótipos que Hollywood ama usar quando fazem filmes sobre muçulmanos. Esta história faz precisamente aquilo que Hollywood e os preconceituosos odeiam: mostram Shirin no seu todo e não apenas uma parte, a que corresponde à religião que pratica. É não só cansativo, mas também extremamente perigoso insistir constantemente nos mesmos retratos problemáticos e estáticos.
Depois, temos a família de Shirin, os colegas de turma, professores e, claro, Ocean, o primeiro amor de Shirin. Ocean, devido ao seu privilégio branco, não percebe tão bem as experiências de Shirin e as diferenças culturais que existem entre eles e não percebe ao ponto de sentir alguma frustração, se não estou em erro (li este livro há mais de um ano). Também vemos como a islamofobia afeta a restante família de Shirin, que continua a viver a sua vida e a praticar a sua religião independentemente das coisas que a sociedade diz e faz. Os colegas de turma e os professores representam aqueles que acreditam piamente nestes estereótipos horrorosos e agem como se Shirin fosse um perigo ambulante. Ou, então, querem usá-la como um instrumento educativo, como se Shirin existisse para ser estudada pelos coitadinhos brancos que sabem que não devem ser preconceituosos, mas que acham que devem forçar as pessoas marginalizadas a ensiná-los como ser melhores pessoas.



Concluindo, A Very Large Expanse of Sea é um livro arrebatador e repleto de sentimentos genuínos e fortes. O enredo pode não ser tão cheio de acontecimentos (na realidade, o livro é muito mais focado nas personagens em si do que na linha narrativa), mas a escrita de Mafi e o modo como criou as personagens, especialmete Shirin, tornam esta história mais rica e fascinante. É mais do que uma amostra daquilo que uma pessoa muçulmana realmente é, e não o que é de acordo com ideias negativas feitas por uma sociedade preconceituosa. É, principalmente, o retrato de uma adolescente muçulmana que passa por amores e desamores, adora várias coisas, como o break-dancing e a moda, e que só quer viver a sua vida.
 
Poderia e deveria ser publicado em Portugal.


Classificação: 4/5 estrelas.





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