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Opinião [Cinema]: Mulherzinhas (2019)

"Possua sua história". #LittleWomenMovie #AdoráveisMulheresFilme, breve nos cinemas.
Um dos cartazes oficiais da nova adaptação de Mulherzinhas.
Fonte.

Em 1868, Louisa May Alcott viu o primeiro volume do seu romance, Mulherzinhas, a ser publicado. O segundo e último volume foi lançado no ano seguinte. Rapidamente, tornou-se num sucesso comercial, foi bem recebido pela crítica e passou a ser adorado por muitos leitores. Aliás, muitos acabaram por "exigir" mais histórias sobre as personagens. Posteriormente, Alcott acabou por publicar sequelas, Boas Esposas, Little Men e Jo's Boys. Além disso, o seu primeiro romance já foi várias vezes adaptado como filme e como peça de teatro. Recentemente, Greta Gerwig realizou um filme baseado no livro, tendo também escrito o guião


A história foca-se nas irmãs March: Jo, Meg, Beth e Amy. Jo quer ser uma escritora independente e lutar contra uma sociedade patriarcal que não deixa a mulher ser dona de si mesma. Meg é mais romântica, quer ser atriz e casar por amor. Beth é uma menina muito simples e introvertida que adora tocar piano, sendo, no entanto, um pouco frágil. Por fim, Amy é uma moça irrequieta e, ao contrário de Beth, é muito extrovertida. Portanto, todas elas têm idades, sonhos, vocações e vidas diferentes.

Um dia, Jo e Meg conhecem Laurie, um rapaz que já estudou na Europa e vive com o avô. É a partir quando Meg torce o pé e é socorrida por Laurie, que leva as duas irmãs para casa, que nasce uma amizade bonita entre ele e a família March.

Entretanto, seguimos as peripécias das meninas March, como o drástico corte de cabelo de Jo, a amizade bonita e paternal entre Beth e o avô de Laurie e a ida de Amy para França para estudar Arte e ser pintora. Apesar de todos estes momentos divertidos, delicados e bonitos, a história, na realidade, também é muito triste, havendo mortes, amores não correspondidos e dificuldades financeiras. Ainda assim, é uma história magnífica e linda sobre o poder feminino, o sonho, o amor pela escrita e a resiliência durante e após a Guerra Civil americana.


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Capa de uma das suas mais recentes edições portuguesas. Mulherzinhas faz parte de uma nova iniciativa da Porto Editora relacionada com clássicos para os mais jovens.



Relativamente ao filme, na minha opinião, ele está muito bem feito e bem conseguido. A história de Louisa May Alcott sempre foi vista como uma história intemporal, ou seja, ainda hoje, muitos leitores gostam de ler e conhecer estas personagens e têm sentimentos profundos por elas. Greta Gerwig modernizou-a ainda mais com as suas críticas sociais relacionadas com o feminismo e com um mundo que parece querer destruir os sonhos e a criatividade dos mais jovens.

Também inovou esta história ao transformá-la num enredo não linear, isto é, o filme faz paralelismos entre o passado e o presente das personagens. Nós não seguimos a ação através da passagem do tempo. Por exemplo, a cena da abertura consiste na ida de Jo à editora para tentar vender uma história para, depois, poder enviar algum dinheiro para casa, o que significa que ela já não é uma adolescente, mas sim uma jovem mulher.

Como foram feitos estes paralelismos? Gerwig usou uma técnica visualmente muito bonita e simbólica. Usou as cores quentes nas cenas do passado e cores frias nas cenas do presente. Para mim, é uma das melhores coisas deste filme devido à sua carga simbólica. No passado, vemos as irmãs March como raparigas felizes e cheias de sonhos e energia. Por isso, o cenário é belo e adornado por cores como o laranja, o amarelo, o vermelho, entre outras cores quentes. Aqui, são cores que simbolizam a alegria, a inocência e a capacidade de sonhar, elementos associados à infância e à adolescência. Já no presente, quando já são mais velhas e deixaram de ser crianças inocentes que passavam os dias a imaginar, temos o azul e o cinzento. Representam a realidade dura da vida adulta. É uma fase da vida em que as March enfrentam o dilema do útil vs. o sonho. É também a altura em que elas têm de deixar de prestar atenção aos seus verdadeiros desejos e aos seus talentos, pois precisam de trabalhar e ganhar dinheiro. Não é uma técnica nova, mas gostei imenso do seu uso na mesma. 



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A diferença das cores não está presente apenas no cenário. As roupas das personagens também foram uma outra técnica de contrastar o passado alegre com o presente triste. Na imagem de cima, as irmãs usam roupas coloridas. Já na imagem seguinte, usam vestidos sóbrios.
Fonte da primeira imagem.
Fonte da segunda imagem.


Um outro aspeto positivo do filme é a interpretação brilhante de Florence Pugh como Amy March. Foi a pessoa que mais se destacou, o que é uma surpresa, pois a atenção, normalmente, vai para Jo e a atriz que a interpreta. Saoirse Ronan foi uma Jo excelente e é muito talentosa, mas Florence deu-nos uma outra Amy, algo que também foi possível graças à escrita de Greta Gerwig. Pugh disse que não queria interpretar uma Amy má e Gerwig, realmente, criou uma Amy mais complexa. Pugh mostrou muito bem a infantilidade de Amy, bem como a sua maturidade ao tornar-se mais velha. Gerwig também acrescentou algumas características que, na realidade, estão sempre associadas à Jo. Neste filme, Amy critica severamente uma sociedade que não a deixa fazer escolhas por ela própria e que não a deixa ser dona de algo. Além disso, ela mostra como a mulher deve respeitar-se a si própria quando recusa o pedido de casamento de uma personagem que antes amava Jo. Amy não quer ser vista como uma segunda Jo, pois não o é. Amy é Amy. Cada uma destas mulheres tem a sua própria personalidade e elas vivem e lutam para terem o seu próprio lugar no mundo.


Florence Pugh como Amy March.
Fonte.

Quanto às restantes atrizes que interpretaram as outras irmãs, como já disse, Saoirse foi uma Jo fantástica. Mostrou muito bem a vivacidade e o lado destemido de uma rapariga que apenas quer ser escritora e que acha que, para triunfar, não deve casar-se, mudando de ideias posteriormente. Emma Watson também foi muito boa como Meg. Há quem diga que ela já não é tão boa atriz como nos tempos de Harry Potter, mas acho que ela mostrou uma outra garra neste filme ao interpretar algo que é muito discutido no feminismo, que é a possibilidade de a mulher escolher a vida de mulher casada e com filhos e não ser julgada por isso. Eliza Scanlen interpretou Beth de uma forma muito doce e deu uma outra luz a uma personagem que, normalmente, não é muito admirada.


mademoisellelapiquante:    Saoirse Ronan as Jo... - misplaced joan of arc
Saoirse Ronan como Jo March.
Fonte.

Apesar de ter adorado imenso a adaptação de Gerwig, penso que o filme tem alguns aspetos negativos. Por exemplo, deveria ter sido um pouco mais longo. Soube a pouco. As personagens foram bem exploradas, mas, ainda assim, parece que tudo aconteceu tão depressa. Gostava, ainda, de ter visto um pouco mais de Marmee (interpretada por Laura Dern) e da tia March (interpretada por Meryl Streep). Elas dariam outras perspetivas femininas ao filme, mas as mesmas praticamente não foram desenvolvidas.


Em suma, a adaptação de 2019 de Mulherzinhas é uma bela crítica social que nos deleita e nos faz refletir sobre o feminismo e a sociedade patriarcal que ainda hoje temos. É uma adaptação com umas pinceladas contemporâneas e, assim, Gerwig, tal como Alcott, conseguiu fazer um filme igualmente intemporal. É um filme cheio de mensagens e lições para miúdos e graúdos. Faz-nos pensar em como vivemos numa sociedade onde não podemos sonhar e deixar brilhar os nossos verdadeiros talentos, sendo necessários deixá-los de parte para tentarmos ter uma vida decente. Como podemos realmente viver se não podemos, na verdade, concretizar sonhos que, infelizmente, podem não garantir uma vida melhor, mas que nos tornam em pessoas felizes? Aconselho vivamente a sua visualização.


Classificação: 4/5 estrelas.




Trailer com legendas em português.