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Opinião: Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago




P.S: A opinião contém alguns spoilers.


O Ensaio sobre a cegueira é praticamente uma distopia onde, de repente,  as pessoas ficam cegas, exceto uma mulher, a esposa de um oftalmologista. Numa primeira fase, o governo decide organizar locais de quarentena para os que ficaram subitamente cegos. A mulher acompanha o seu esposo, fingindo ser cega. Todo o romance é sobre o melhor e o pior do ser humano. Será que esta cegueira branca misteriosa tem cura? Será que a maldade irá sobrepor-se à bondade? Como irá a mulher viver numa terra de cegos? 


É a terceira vez que leio um livro do grande Saramago e este é o que eu gostei mais de ler até agora. É um romance que perturba, que inquieta, que nos faz refletir. Saramago analisa, estuda e disseca a sociedade num contexto inimaginável: e se todos ficassem cegos de repente? Estamos, portanto, perante uma premissa fascinante onde há de tudo um pouco. Há uma forte exploração de temas, como as dinâmicas de poder, a violação como a arma do medo e de demonstração de poder, a ausência de esperança, a resiliência do ser humano, a ganância, etc. A execução da premissa é formidável e só mostra como é que este autor português ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1998. 


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Uma imagem da adaptação cinematográfica (2008) do romance. Mostra a destruição e o estado do exterior dos locais de quarentena após a epidemia da cegueira. Fonte.

As personagens são igualmente incríveis e funcionam como representações de diferentes atitudes humanas. Por isso, nenhuma delas tem nome e são conhecidas através de uma característica, como a profissão. Temos homens, mulheres e crianças. Uns já perderam a esperança, outros ainda são capazes de ter forças para viver. Uns sentem-se fracos, outros conseguem ser líderes, mas não necessariamente bons líderes. Há figuras que ainda têm um bom coração e outras que apenas conseguem sentir ódio e sede por poder, ao ponto de roubarem ou exigirem objetos inúteis e que, neste contexto, perdem valor.

Há uma personagem que se destaca: a mulher do oftalmologista. Nos edifícios de quarentena, cheios de grupos que tentam lutar pela sobrevivência, ela nunca diz que consegue ver e o seu marido é o único que sabe (os mais próximos vão sabendo aos poucos). Ela acha que poderia haver consequências negativas se um desconhecido soubesse da condição dela. Como iriam tratá-la? Será que iriam venerá-la? Será que ela poderia ser uma rainha? Ou será que iriam usá-la para tudo e mais alguma coisa? Será que ela passaria a ser uma criada? Um outro aspeto interessante relativamente a esta personagem é a forma como, mesmo numa situação tão horrível, ela nunca diz que consegue ver, sendo capaz de lutar. Isto acontece numa das cenas mais terríveis e assustadoras do livro: a violação de várias mulheres pelo grupo de homens mais temido e poderoso da quarentena. É mesmo o ser humano no seu pior. É o homem que se aproveita da mulher, usando-a como um objeto sexual. É a mulher que nada pode fazer perante a sua vulnerabilidade. É uma análise profunda e nojenta da cultura da violação e do sexismo. Nem a mulher que não é cega escapa, pois é impotente perante as armas que os homens conseguem usar mesmo estando cegos. Até os homens que conhecem as mulheres acham que elas estão a cumprir o seu objetivo "natural" e que estão a contribuir para o bem coletivo. Poucos defendem-nas. É nessa ausência de ajuda que a mulher  do oftalmologista age e reconhece o poder que tem.


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Julianne Moore desempenhou o papel da única pessoa que não foi afetada pela epidemia. Fonte.


A escrita de José Saramago, como já devem ter ouvido falar, não é fácil e exige alguma concentração. Não estamos perante uma leitura leve que nos deixa o coração quente e alegre. É uma leitura assustadora, uma crítica a uma sociedade que, mesmo no seu estado mais frágil, não consegue deixar de revelar o seu lado feio e sombrio. A escrita revela o cuidado, a destreza e a maturidade de alguém que vê a literatura como o espelho da humanidade. É também alguém que vê a literatura como um laboratório onde pode examinar o ser humano. Além disso, é uma escrita única pela forma como Saramago utiliza a pontuação e como constrói os parágrafos e os diálogos. Por acaso, consigo ler os seus livros bastante bem e não tenho problemas em perceber se estou a ler um diálogo ou não. Para muitas outras pessoas, isso não é fácil, mas acho que é algo possível de ser alcançado com a leitura de mais livros deste autor.


Em suma, o Ensaio sobre a Cegueira é uma leitura forte, pavorosa, mas com uma mensagem minimamente esperançosa no final. Mesmo depois da última página, continuamos presos a este livro brilhante. Afinal, o que significa esta cegueira branca? Porquê branca? Como é que a mulher do oftalmologista não ficou cega como os outros? É um livro que nos arrepia por ser tão bom, tão bem escrito e pensado, deslumbrando-nos também pela sua frieza e por não nos fazer esquecer que a humanidade é complexa. É uma leitura lenta devido à escrita singular e, considerada por muitos, densa, mas não deixa de ser um livro com mensagens importantes.


Classificação: 4.5/5 estrelas.


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