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Opinião: Frankly in Love, de David Yoon

Frankly in Love | Amazon.com.br

 

P.S.: Esta opinião contém spoilers. Se ainda não leram o livro, passem para o próximo parágrafo depois de verem a palavra spoilers assim: SPOILERS.

 

Frankly in Love, de David Yoon, é um romance contemporâneo YA sobre um rapaz coreano-americano, Frank,  que quer namorar com uma rapariga branca, mas os seus pais querem que ele namore com alguém que também seja de ascendência coreana. Deste modo, ele faz um pacto com uma amiga coreano-americana, Joy, cujos pais são como os pais dele. Só que nenhum dos jovens pensava que o amor iria crescer entre eles...

 

Apesar de a minha própria sinopse estar focada na vida amorosa do protagonista, na realidade, o amor não é exatamente o grande tema do romance. Este livro, de forma muito direta, explora o racismo, a xenofobia, o "anti-blackness" na comunidade coreana, entre muitos outros assuntos sociais. É, portanto, um livro carregado de mensagens sociais, mas também de sentimentos e experiências típicas da adolescência.

 

O enredo é muito simples: Frank é coreano-americano e os seus pais querem muito que ele namore com alguém como ele. No entanto, ele está apaixonado por uma rapariga branca. Entretanto, uma amiga dele, Joy Song, que também é coreano-americana, tem o mesmo problema. Assim, eles fazem um pacto: perante os pais, eles fingem ser namorados. Fora das suas casas e dos seus meios familiares, eles estão com os seus respetivos pares. Era suposto ser um plano simples, mas, depois, os sentimentos mudam...
Ao longo da história, não vemos tanto sobre esta parte da vida de Frank. Vemos, sim, Frank a explorar questões como a dualidade da sua identidade e o facto de ele não gostar da forma de pensar dos pais. Frank está sempre a falar sobre racismo, xenofobia, as diferenças entre a sua geração e a geração dos pais e as relações familiares complexas. É interessante ver como o autor alude imensas vezes o racismo que existe entre pessoas da comunidade coreana em relação aos que não são coreanos, principalmente relativamente a pessoas negras. Por exemplo, a irmã de Frank namora com um homem negro e os pais não aceitam o relacionamento.
Posto isto, é um romance contemporâneo YA que explora mais as temáticas importantes e atuais como as que foram mencionadas do que Frank e os seus amigos como adolescentes.
O problema nisto é que muitos leitores, eu inclusive, pensavam que iria ser um livro amoroso com linhas narrativas que muitos adoram, como o triângulo amoroso e o namoro falso. Ao verem que, afinal, esses aspetos narrativos não existem numa grande escala, acabaram por não gostar muito do livro e sentiram-se enganados. De facto, a editora deveria ter tido mais cuidado quanto à sinopse e às próprias estratégias de marketing, que apresentavam em grande destaque a situação do triângulo amoroso. Outras pessoas, mesmo depois de perceberem que o amor não era o grande tópico da história, acabaram por, pelo menos, gostar do livro na mesma devido à forma como o protagonista está atento ao mundo que o rodeia.
No meu caso, acho que a abordagem dos temas e o triângulo amoroso deveriam existir nas mesmas medidas, uma vez que... As relações amorosas não eram genuínas e não faziam grande sentido. Não foram desenvolvidas ao ponto de serem algo, pelo menos, realista. Frank gosta de Brit, a rapariga branca, porque.... é bonita. Não há muito mais para além disso. Devido ao namoro falso, ele acaba por não estar muito com Brit e os seus sentimentos por ela não são mais do que atração física e não crescem. Quanto a Joy... Foi tudo muito repentino. Durante o namoro falso, viram que tinham muitas coisas em comum e divertiam-se imenso juntos e... pronto... Apaixonaram-se e, SPOILERS, deram início a uma relação verdadeira, traindo os seus respetivos pares, o que é horrível. Eu odeio histórias que parecem validar a traição e esta parte da história foi, para mim, uma das piores partes do livro.

 

FILFonte.

 

Quanto à escrita, não sei se gostei do estilo de Yoon. Houve momentos em que achei a escrita um pouco pretensiosa. O pior são certas piadas que... não têm piada. Não me lembro de exemplos concretos, mas há coisas muito estranhas e esquisitas ao longo do livro. Alguns leitores disseram que o autor tentou ser peculiar como John Green e consigo ver a lógica nesse argumento. Green ficou conhecido por ter personagens ímpares que se acham muito filosóficas e especiais em relação aos meros mortais que não passam a vida a dizer citações memorizadas. Yoon pareceu querer criar um estilo também peculiar e ímpar, mas... Acabou por ser um estilo apenas estranho. Talvez a melhor parte da sua escrita seja a forma como incluiu os temas sociais acima referidos e os momentos que destacam a cultura coreana e as suas tradições. Os mesmo foram abordados de forma simples, mas eficaz.

 

Relativamente às personagens... Parto já para a melhor parte: Frank e os pais. No início, Frank revolta-se muito, especialmente interiormente e não propriamente à frente dos pais, contra a maneira de pensar deles. Entretanto, ele vai percebendo as razões pelas quais eles têm os preconceitos que têm. Ele não aceita, claro, mas começa a compreender as suas opiniões e maneiras de ser e quer melhorar a sua relação com eles. De resto...
Primeiro, como já disse, a ligação entre ele e Brit é nada mais do que algo físico. Não há mais nada ali. Nada. Por causa disso, Brit não passa de uma menina bonita. Ela não tem personalidade. É como se ela existisse apenas devido à sua beleza e por ser um desafio aos ideais dos pais de Frank. Depois, Joy... Nem deu para perceber como surgiram os sentimentos supostamente genuínos entre eles. Pelos vistos, devido às semelhanças que partilhavam enquanto coreano-americanos, Frank de repente percebeu que gostava dela. Joy, que tinha um namorado, foi na onda de Frank e começaram a namorar. Joy também não é muito diferente de Brit relativamente a personalidades. Há poucas diferenças, como o facto de Joy ser um pouco mais rebelde, "boa onda" e... Não sei mais o que dizer, sinceramente. É interessante ver como, mais uma vez, a personalidade de uma personagem feminina não foi bem desenvolvida.
Quanto a Frank, é muito difícil gostar dele. Por vezes, o seu humor e o sarcasmo são bons, mas eram mais vezes estranhos do que bons. Ele critica os pais por julgarem aqueles que não são como eles, mas Frank não é muito diferente deles ao estar constantemente contra a geração anterior. É perfeitamente válido criticar a geração dos pais e ele faz críticas muito boas, mas ele próprio é preconceituoso. Depois, há o facto de ele não querer saber de nada que seja mais complexo e profundo relativamente a raparigas e relações amorosas. Portanto, não sei se gostei dele. As críticas sociais e o facto de estar atento à sociedade em que está inserido devem ser os aspetos mais positivos desta personagem.
Por último, gostaria de falar sobre Q, mas tenho de avisar que há SPOILERS a seguir. Q, um rapaz negro, é o melhor amigo de Frank. É com ele que Frank fala sobre a sociedade e raparigas. Também jogam jogos e fazem outras coisas do género. E é isto. Não há muito mais. No entanto, queria falar sobre ele porque o autor achou por bem usá-lo como um plot twist: Q é gay, ama Frank e beija-o nas últimas páginas. Acho que não é nada bom quando um autor deixa cair de paraquedas uma personagem gay só para tornar o protagonista na melhor pessoa de sempre ou para fazer com que o livro seja um pouco mais diversificado. Uma personagem secundária gay não deve existir para enaltecer o protagonista ou o próprio livro. Se é para incluir uma personagem gay, a mesma deve existir como um todo, como uma pessoa autêntica, não como um meio para atingir um fim.

 

 

14 people who weren't prepared for the Frankly in Love trailer - Penguin  TeenImagem do book trailer.
Fonte.

 

Concluindo, é engraçado como, no final da leitura, eu não tinha tantos apontamentos negativos relativamente a Frankly in Love. Eu até tinha gostado da experiência de leitura. Mas há mesmo mais aspetos negativos do que positivos. Sim, continuo a gostar de como o autor falou sobre o racismo, a xenofobia, a diáspora, famílias complexas, etc. Também há momentos divertidos. No entanto, a sua escrita um pouco pretensiosa, as suas personagens com personalidades pouco desenvolvidas ou inexistentes e o enredo simples, mas pouco satisfatório em comparação ao que era prometido pela sinopse são aspetos que devem ser apontados.

 


Classificação: 3/5 estrelas (mas 3 estrelas fracas).