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A Biblioteca da Daniela

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Opinião: Meridiano 28, de Joel Neto

24.03.19, Daniela S.
Autor: Joel Neto
Editora: Cultura Editora
ISBN: 9789898886194
1.ª edição: maio de 2018
Páginas: 424
Apresentação: Capa mole


Neste mais recente romance de Joel Neto, seguimos as demandas de José Filemom, que tenta realizar um pedido: escrever um livro sobre um tio seu, Hansi Abke, que, pelos vistos, foi um grande caçador de nazis, mas alguém que tinha uma relação minimamente estranha com o sobrinho. É ao ler os diários do tio que José não só irá aprender como foi viver no Faial durante a Segunda Guerra Mundial, como também irá conhecer um Hansi diferente. No entanto, o que foi que Hansi realmente fez no Faial? Qual é, de facto, o seu legado? Irá José mudar de ideias quanto ao tio?

Que bom encontrar um romance sobre a Segunda Guerra Mundial que tem como pano de fundo uma ilha açoriana. Gostei de aprender que Faial foi um lugar estratégico e fundamental para muitas vidas. Foi como um paraíso e um ponto de concórdia entre açorianos, ingleses e alemães. Estas lições históricas foram muito bem dadas ao longo deste trabalho de ficção. Temos factos verídicos que não nos são apresentados de uma forma muito cansativa, o que tende a acontecer em muitos livros de ficção histórica. Neste caso, estão presentes em doses suficientemente interessantes e que deixam o leitor curioso e fascinado nesta matéria.

Apesar destas pequenas aulas de História, não achei que o livro fosse tão cativante quanto isso. Gostei da escrita, sem dúvida alguma. Posso ter gostado de ler acerca do Faial nos anos 40, mas o ponto forte do romance é o estilo de escrita do autor. Sem rodeios e de fácil compreensão, o escritor foi muito hábil na mistura do presente do protagonista com o passado do familiar dele,  acrescentando passagens de diários que atribuem um caráter real à história. No entanto, a construção das personagens não foi bem sucedida. As personagens não têm grande profundidade e umas parecem existir só porque sim. Algumas existem mesmo para tentar colocar em destaque outras. Uma das amigas da personagem principal é um exemplo dessa criação fraca. Ela não trouxe nada de novo ao enredo e apenas existe para mostrar que José é muito boa pessoa. Até é possível sentirmos "pena" por ele , pois passa por certas situações e sente certos sentimentos por causa dela. E usei aspas, porque talvez tenha sido essa a intenção do escritor, mas não senti nada por esta personagem, nem pelas restantes. De facto, depois da primeira metade do livro, estava mais interessada no ambiente vivido no Faial naqueles anos horríveis do que nas personagens e nas suas vidas.

Quanto ao enredo, não é algo propriamente novo, a não ser o final. Até às últimas páginas, temos o que muitas vezes encontramos em livros que misturam História com o presente: alguém encontra objetos de um familiar e fica curioso em relação à vida desse familiar. Depois, vai para os lugares que o familiar frequentou e tenta reconstruir e entender a vida do mesmo. Ao mesmo tempo, esse alguém encontra semelhanças entre a sua vida e a do seu familiar. Por fim, aprende uma lição de vida. Tudo isto aconteceu neste livro (mas, claro, a ação não se resume ao que acabei de escrever). É, de facto, o final que é muito diferente de outros livros que têm este tipo de premissa. Quer dizer, um final onde tudo é revelado e percebemos que nem o que parece é também é comum na literatura, mas principalmente em thrillers. De qualquer forma, fiquei surpreendida ao ler os últimos capítulos, pois o que o autor escolheu fazer foi um grande risco. Como não quero dar spoilers (isto é, estragar a leitura a alguém), apenas posso dizer que muitos leitores odeiam sentir-se traídos ao verem que o enredo muda drasticamente e sem grandes motivos. Eu não fiquei zangada, mas achei interessante ao ver o escritor a aventurar-se desta forma. As personagens envolvidas nessas mudanças explicam-nas e achei tudo suficientemente plausível. Todavia, não são explicações magníficas e que nos deixam de boca aberta. Portanto, sim, penso que foi um risco acabar este romance a "enganar" os leitores.


Resumindo, Meridiano 28 consegue cativar-nos através dos conhecimentos históricos que nos transmite. Contudo, as personagens parecem ser um pouco vazias e não são tão fascinantes como eu pensava que seriam. Profundo em termos de investigação histórica, mas não quanto à autenticidade das personagens. De qualquer forma, Joel Neto tem um estilo de escrita apelativo e o livro, embora tenha um enredo familiar, está bem estruturado, ao ponto de me ter surpreendido com aquele final que pode ser um choque, mas isso depende de cada leitor. Curiosos?


Classificação: 3.5/5 estrelas





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