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Opinião: Raparigas Como Nós, de Helena Magalhães



Raparigas Como Nós, de Helena Magalhães, é um romance Jovem Adulto que segue as pisadas de Isabel. Viajando entre as memórias de 1999 e as vivências de 2004 (sendo este ano o presente da protagonista e não 2018 ou 2019, por exemplo), vivemos, com ela, aventuras, como festas e tardes na praia, bem como desventuras, como experiências com drogas e traições. É um livro sobre amores de adolescência, amores mais maduros, drogas e lições que ficarão para sempre na memória da protagonista.


A escrita da Helena Magalhães é simples e envolvente, se bem que, de vez em quando, há uma tentativa de ter passagens muito mais maduras do que a própria narradora, que é a protagonista do romance, a Isabel.  De qualquer forma, é um estilo que deixa o leitor curioso e a querer ler um pouco mais.


O enredo é apelativo quer para um público adolescente, quer para um público que possa sentir nostalgia relativamente aos seus tempos de folia juvenil. É uma história leve, mas, ao mesmo tempo, com aspetos mais pesados, pois fala imenso sobre o consumo e o vício das drogas, lembrando constantemente de como elas são perigosas. Um dos temas que gostei mais de ver neste livro é a diferença entre o amor pela pessoa e o amor pela ideia que temos da pessoa. É uma das coisas mais bem exploradas e executadas neste romance. É mesmo o ponto forte desta história. Por um lado, temos Afonso, um rapaz que Isabel, aos 17 anos, conhece numa festa. A partir daí, saem imenso juntos e vão conhecendo as personalidades de cada um aos poucos. Por outro lado, temos Simão, uma paixoneta de Isabel quando ela tinha 14 anos. Isabel nunca conheceu muito bem Simão, mas gostava do seu aspeto de bad boy e ela pensava que ele era muito fixe e tudo o mais. Através destas duas personagens masculinas, Magalhães consegue vincar muito bem que, por vezes, só temos mesmo uma paixoneta, mas não estamos mesmo apaixonados pela pessoa, uma vez que, na realidade, gostamos da ideia que formamos acerca dela e não da personalidade dela. O amor é mais verdadeiro e bonito quando conhecemos a pessoa e nos focamos nela e não na ideia que temos dela.

Também notei a presença de temas que, penso eu, deveriam ser explorados cada vez mais nesta literatura mais juvenil, como o sexismo e os conflitos e as dinâmicas familiares. Só não gostei da forma como a autora introduziu uma personagem gay só para dizer que o livro tem uma personagem gay. Se for para ter representatividade, a personagem deveria ter uma presença mais significativa no livro e não ser uma mera passagem que apenas reflete como a protagonista é muito boazinha e aceita bem pessoas diferentes. A tentativa de abordar questões feministas também está lá, mas, como já li o livro há algum tempo, não posso dizer se gostei disso ou se está bem feito. Sei que há esta tentativa de dizer que não devemos ver as outras raparigas como rivais, mas não sei se essa ideia foi bem desenvolvida. Por exemplo, eu pensava que um dos objetivos deste livro era mostrar que as raparigas poderiam ter as suas diferenças e que não seriam julgadas e odiadas por isso entre si. Afinal, o título sugere uma ideia de irmandade feminina até. No entanto, umas quantas passagens dão a entender o contrário. A protagonista parece achar-se superior às outras raparigas porque acha que não é tão parva como elas ou algo assim. São incongruências nas mensagens que a autora queria transmitir que me deixam mais com o pé atrás do que os clichés e a escrita.


Relativamente às personagens, elas são e têm clichés, mas gostei de conhecer a Isabel quando tinha 14 anos. Gostei da sua ingenuidade e da sua inocência. De resto, parecia que cada personagem correspondia a um tema que a autora queria explorar, ou seja, elas não tinham uma existência própria. Eram um meio para atingir o fim, sendo este o de transmitir lições e abordar determinados assuntos.


Concluindo, Raparigas Como Nós é um dos primeiros passos interessantes dados por uma editora tradicional portuguesa quanto à literatura YA nacional. Este livro faz-nos viajar e recordar as nossas vivências, os nossos amores e desamores, as partes agridoces da adolescência e os momentos bons e maus. Está bem escrito e é uma leitura envolvente. No entanto, poderia ter sido muito melhor, principalmente quanto à criação das personagens e à abordagem de determinados temas. Contudo, não foi uma leitura horrível.


Classificação: 3/5 estrelas.


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