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Opinião: Sadie, de Courtney Summers

Bertrand.pt - Sadie

 

Gatilhos/Trigger warnings: Abandono; morte; depressão; drogas; família disfuncional; perda de um membro da família; homicídio; pedofilia; violação; abuso sexual de uma criança; violência.

 

Sadie, de Courtney Summers, é um thriller jovem-adulto sobre Sadie Hunter, de 19 anos, que desapareceu em busca de vingança. À medida que seguimos as suas pisadas, também "ouvimos" West McCray, um radialista que tem um podcast sobre true crime e foi contactado por uma desconhecida para localizar Sadie. No início, West não valorizou muito a situação, mas o desaparecimento de Sadie, afinal, tem aspetos insólitos.

Primeiro, não era uma fugitiva qualquer. Tem gaguez, foi abandonada pela mãe e viu o seu mundo desmoronar quando a irmã mais nova foi brutalmente assassinada. A polícia é incapaz de encontrar o culpado. Terá Sadie ido à procura de justiça?

West acaba por ficar obcecado com o caso e dedica todo o seu tempo ao desaparecimento de Sadie, indo até à cidade natal da jovem para seguir o seu rasto. O que ele não esperava era que cada pista resultasse numa verdade absolutamente chocante....

 

 

Uma leitura inquietante e viciante do princípio ao fim! Violência (sexual, física, etc.) contra raparigas e mulheres. Este é um dos grandes temas deste livro. E que forma de abordar o mesmo! O livro foi tão realista e certeiro sobre como este caso seria tratado se fosse real. A falta de entreajuda e de interesse, um sistema judicial injusto e ora demasiado despachado, ora demasiado lento, a rapidez com que um caso passa de urgente para nada... É, portanto, uma leitura revoltante, mas que nos prende pelo magnífico retrato social e judicial real.

 

Comecemos pelo enredo. É de fácil compreensão e de se acompanhar. Às vezes, quando temos mais do que uma perspetiva ou um narrador, pode ser complicado ou confuso. Neste caso, isso não acontece, pois, por um lado, temos a protagonista e a sua demanda. Por outro lado, temos um radialista a investigar essa mesma demanda, mas através do seu podcast, que inclui entrevistas, telefonemas e transcrições de conversas. Portanto, estamos a falar de formas completamente diferentes de termos perspetivas igualmente diferentes. Isso foi uma técnica genial e faz com que o leitor fique preso à história, uma vez que está a seguir os passos de Sadie e está a criar as suas próprias opiniões e teorias. Ao mesmo tempo, temos o radialista, que, tal como o leitor, está a criar as suas opiniões e teorias. É mesmo extraordinário ver como o enredo acaba por se desenvolver tão bem e sem emaranhados através destes dois formatos diferentes.

Além disso, o enredo é forte e um grande soco na barriga emocional. É tudo apresentado de forma simples e o menos explícito possível, mas dá para perceber que é uma história sobre crimes sexuais, como pedofilia e abuso sexual, e morte. É pesado, é revoltante e, infelizmente, é como tantos crimes e situações da vida real. No desenrolar da ação, é impossível não sentir a fúria e a frustração de Sadie. É tudo tão cru e cruel, que o leitor acaba por sentir na sua própria pele e no seu próprio coração as emoções da protagonista e a inquietação crescente de West. É, deste modo, uma história de leitura fácil e rápida, mas dura e difícil de digerir pelos temas retratados, não sendo, no entanto, péssima por isso. Aliás, a grande mestria de Summers está no facto de ela ter um enredo pesado e uma escrita simples.

 


m o r e t h a n w o r d s — books i've read in 2019 » Sadie by Courtney...Fonte da imagem.

 

 

Por falar em escrita, esta é também direta, sem rodeios e paragens. A autora está sempre a dar mais e mais do seu talento e o leitor absorve tudo. Admira-me imenso como Summers foi capaz de contar uma história tão violenta de uma maneira tão simples e sem violência gratuita. Tudo tem um propósito. Nada serve para chocar o leitor só porque sim. O choque existe porque tudo o que é contado é real. Esta história em específico é fictícia, mas é baseada no mundo em que vivemos. É claro que choca, mas não é um susto barato como vemos em filmes de terror com crítica social péssimos. Summers foi brilhante em não ser sensacionalista. Fez tudo com humildade e respeito para com as verdadeiras vítimas. É uma escrita muito humana. De um ponto de vista literário, como disse acima, é simples, direta e cativante, não perdendo tempo com sensacionalismos e choques que não são sinceros.

 

Quanto às personagens, as que têm grande peso e mais presença são, claro, Sadie e West. As personagens secundárias são as migalhas do trilho dos crimes e, apesar de não haver nenhuma que se destaque realmente, o propósito delas é mesmo esse: não é suposto as personagens secundárias terem as suas próprias personalidades como Sadie e West. As secundárias servem como generalizações de tipos de pessoas que se envolvem em casos como este na vida real. Temos polícias e investigadores desinteressados, pessoas comuns que nem sequer querem perder tempo a responder a uma pergunta, pessoas que se aproveitam da solidão de uma rapariga, uma sociedade que não quer saber de desaparecimentos e mortes de raparigas pobres e desinteressantes. Essa também é uma grande questão do livro: como pode a sociedade querer saber tanto sobre a morte de uma criança, mas não de uma outra? Há recursos internacionais para uma Maddie, mas nem sequer há recursos locais para uma menina pobre e sem familiares como a irmã de Saddie. Essa menina pode não ser real, mas a sua situação é. Faço novamente a pergunta: como podemos, enquanto sociedade, estarmos ligados à televisão por causa de uma criança, mas desviamos o olhar quanto a uma outra?

Sadie é impulsiva, imprudente e vingativa, mas também continua a ser uma jovem. Ainda mal atingiu a idade adulta e passou a vida em sofrimento. A mãe, viciada em drogas e álcool, abandonou Sadie e a irmã, que acabaram por viver num parque de RVs sob a visão de uma vizinha. Sadie é olhada de lado devido à sua gaguez. Sempre teve de ser a adulta da casa. É possível o leitor sentir alguma irritação perante certas atitudes dela, mas será impossível não compreender os motivos? Será impossível sentir compaixão e compreender como deve ser difícil e perigoso fazer o que ela está a fazer, isto é, ir atrás do desgraçado que tornou a vida dela num inferno ao tirar-lhe a irmã da sua vida para sempre? Esta personagem complexa é fascinante e é um outro motivo que nos faz sentir presos às páginas deste livro assombroso.

West talvez sirva como uma amostra daqueles que acabam por valorizar o que a restante sociedade despreza e ignora. É preciso ter um coração sensível para deixar de pensar apenas no seu podcast e passar realmente à ação e fazer algo por duas raparigas que, até então, tinham sido invisíveis. É incrível pensar que, nos dias de hoje, o mais provável é que ele iria acompanhar tudo e fazer a investigação só mesmo para ganhar algo com isso. Mais ouvintes, mais dinheiro, mais fama. Contudo, ele realmente é um homem preocupado. Representa também aqueles que estão fartos, mas pouco surpreendidos com a maneira como a sociedade e o sistema judicial encaram crimes como estes. Ele representa aqueles que lutam contra a indiferença, a falta de profissionalismo e de interesse, e que têm como propósito genuíno entender o que se passa e tentar resolver a situação.

 

 

Fonte da imagem.

 

 

Em suma, Sadie é um thriller jovem-adulto. Alguns devem pensar: "bem, não deve ser um thriller muito bom, até porque foi escrito para os mais jovens". Não é por ser para os mais jovens que o livro não funciona como thriller. Aliás, funciona e muito bem. É um thriller cruel e cru sem ser necessário usar descrições violentas e chocantes para captar a atenção do leitor e fazer com que o leitor sinta alguma coisa, como revolta, angústia, dor e um pouco de esperança. Este livro é bom para os que acreditam que a literatura YA não presta e que é leitura de praia, leitura simplória para jovens que passam a vida no telemóvel e mais blah blah blah. A escrita é simples, mas precisa e genuína, o enredo é complexo e duro, mas de fácil compreensão e um retrato implacável dos nossos tempos, as personagens são realistas e foram criadas com muito cuidado e talento.

No fim, e só mesmo para perceberem o quão real, profundo e doloroso este livro é, o radialista diz: "Porque eu não aguento outra rapariga morta".

E então? Ainda acham que YA é simplório?

 

Classificação: 5/5 estrelas.

 

 

Até à próxima!