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Opinião: Salt to the Sea, de Ruta Sepetys


Salt to the Sea é um livro de ficção histórica YA que conta com quatro perspetivas diferentes: Joanna, uma rapariga da Lituânia com alguma experiência como enfermeira; Florian, um soldado da Prússia com um tesouro roubado e que foge dos Nazis; Emilia, uma rapariga polaca que está prestes a dar à luz; e Albert, um Nazi com ilusões de grandeza. Este livro junta estas personagens fictícias a factos reais da História que, infelizmente, são muito desconhecidos do público geral: o naufrágio de um navio alemão, Wilhelm Gustloff, no Oceano Báltico causado por um submarino soviético.


Este romance histórico está, na realidade, relacionado com um outro romance histórico YA da autora, O Longo Inverno, pois Joanna é prima da protagonista desse livro. No entanto, as ligações terminam aí. Aliás, eu não estou a falar apenas de curiosidades da autora, mas sim em termos de qualidade dos livros. Para mim, O Longo Inverno foi um livro maravilhoso, mas Salt to the Sea foi uma desilusão.


Em primeiro lugar, admiro a autora por querer dar a conhecer uma das grandes tragédias da Segunda Guerra Mundial, mas que, infelizmente, é muito pouco falada. 9000 pessoas morreram, incluindo 5000 crianças. A embarcação tinha, ao todo, 10.500 passageiros. Foi, portanto, um acontecimento horrível e ainda bem que Sepetys decidiu usar a ficção histórica para que mais pessoas soubessem da existência deste naufrágio. Nesse aspeto, o enredo está bem conseguido. De facto, Sepetys fez um bom trabalho e não foi necessário ela aproveitar-se de pessoas reais para poder usá-las como personagens. Através de personagens que nunca existiram, ela conseguiu cumprir um dos grandes objetivos da ficção histórica: ensinar História através da ficção.

Quanto à escrita, continua impecável como no primeiro livro da autora que eu li. Simples, direta e envolvente. No entanto, os capítulos muito pequenos, que, para mim, foram um dos pontos positivos n'O Longo Inverno, não resultaram neste romance. Penso que a vontade de ter quatro perspetivas completamente diferentes não ajudou para que a técnica dos capítulos curtos resultasse. Se ela queria tanto ter quatro protagonistas, deveria, então, ter escrito capítulos mais longos. Também poderia ter "sacrificado" alguns protagonistas. Poderia ter tido apenas dois e não quatro, por exemplo.

O que quero dizer é que o estilo de escrita continua bom, mas a técnica dos capítulos curtos não resultou, tendo em conta a quantidade de informação e o tempo debaixo dos holofotes que a autora queria dar às quatro personagens.


Aesthetics.
Fonte.


Relativamente às personagens, não tenho muito a dizer. Apesar das situações extremamente angustiantes, violentas e trágicas, não senti muita empatia por elas. Além disso, a questão dos capítulos curtíssimos prejudicou essa parte de fazer o leitor conhecer as personagens. Dá para ver que, como disse anteriormente, Sepetys deveria ter escolhido apenas dois protagonistas. As personalidades e as histórias de Joanna e Florian estão muito mais bem desenvolvidas do que Emilia e Albert. Sem dúvida alguma que ler os momentos antes e após o naufrágio foi algo intenso para mim e, aí, senti empatia, mas por causa da narração em si e não pelas personagens. Eu percebo que a autora queria analisar e fazer sobressair várias perspetivas muito diferentes e, de facto, estas quatro personagens têm características únicas. No entanto, por vezes, menos é mais. A autora deveria ter mesmo contado apenas duas histórias fictícias dentro da história verídica do naufrágio.



Aesthetics.
Fonte.


Concluindo, Salt to the Sea não conseguiu chegar aos calcanhares d'O Longo Inverno. A sua sinopse prometia muito e criei expectativas altas. Todavia, foi uma leitura que me deixou desiludida. Por vezes, isto acontece quando um autor quer meter muitas coisas diferentes num livro, mas, afinal, não sabe bem como fazer isso. Dá para ver que a autora usou fórmulas d'O Longo Inverno, como os capítulos curtos e a escrita sem rodeios. Mas, tendo em conta que os objetivos para este livro eram diferentes, as fórmulas anteriores resultaram num livro assim-assim. Pelo menos, aprendi alguma coisa e, nesse aspeto, este romance mostra a importância da ficção histórica.


Classificação: 3/5estrelas.