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A Biblioteca da Daniela

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Opinião [Série televisiva]: Anne with an E (segunda temporada)

13.07.20, Daniela S.

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Cartaz da segunda temporada.
Fonte.


P.S.: Esta publicação contém spoilers da primeira temporada. Cliquem aqui para lerem a minha opinião sobre a primeira temporada.


A segunda temporada começa com dois grandes pontos narrativos. Por um lado, temos a partida de Gilbert Blythe, que, após a morte do pai, decide deixar Avonlea para trabalhar num navio. O outro grande ponto é a chegada de dois desconhecidos que arrendam quartos na casa de Anne. Deste modo, temos a continuação dos últimos episódios da primeira temporada, que permite um maior desenvolvimento das personagens que já conhecemos, bem como o aparecimento de personagens novas.


A história desta temporada foi ainda mais intensa e profunda do que a primeira. Continua a abordar temas como a adoção, a família, a experiência no orfanato e a inocência da infância de uma forma bonita, mas também, por vezes, crua, principalmente quando vemos os momentos do passado de Anne quando ela vivia no orfanato. Esta temporada vai mais além e inclui outros assuntos muito atuais, como o racismo, a comunidade LGBTQIA+, o papel da mulher na sociedade, entre outros.

Começo por analisar um dos ramos narrativos, o de Gilbert, que está longe de Avonlea e a trabalhar num navio. É aí que ele conhece Sebastian Lacroix, ou apenas Bash, interpretado por Dalmar Abuzeid. Bash é um homem negro livre oriundo de Trinidade. É importante saber que ele é livre, ou seja, não era escravo de ninguém, se bem que a sua mãe ainda era escrava de uma família. Sebastian, ainda assim, sofre algum preconceito em Trinidade e em Avonlea. Em Trinidade, ainda é visto como um escravo. Em Avonlea, é visto como um desconhecido que pode ser um criminoso. É a prova de que, apesar de leis criadas para (tentar) acabar com o preconceito contra os negros para que sejam visto como seres humanos não são o suficiente. É necessário alterar os pensamentos, as opiniões, as ideias feitas das pessoas. Embora seja bom mostrar o racismo numa série como esta, Sebastian não existe apenas como uma lição para os brancos e os não-negros. Ele é uma pessoa, isto é, ele também ama, sonha, chora, festeja, vive. É um homem caloroso e cheio de amor e amizade para dar. Dá para ver isso na sua relação com Gilbert, cheia de cumplicidade e de irmandade. Podemos mesmo dizer que Sebastian é como um irmão mais velho de Gilbert e é por isso que vai viver para Avonlea. A evolução desta relação foi muito bonita e enriqueceu imenso a história.




Gilbert Blythe (Lucas Jade Zumann) e Sebastian Lacroix (Dalmar Abuzeid) em Trinidade.
Fonte.


Lucas Jade Zumann continua a fazer um ótimo papel como Gilbert Blythe. Nesta temporada, a personagem não é apenas um rapaz amoroso e sensível que acabou de perder o único membro da família que lhe restava. Agora, é um rapaz a tentar ser homem mais cedo e que pretende perceber o que quer fazer com a sua vida. É, deste modo, um retrato realista e interessante do adolescente que sabe que tem de pensar no seu futuro, mas que não sabe o que há de fazer a seguir. Por isso, parte à descoberta de si mesmo. Penso que muitos jovens poderão identificar-se com a história de Gilbert.



Matthew Cuthbert (R.H. Thomson), Anne Shirley-Cuthbert (Amybeth McNulty) e Marilla Cuthbert (Geraldine James)
Fonte.


Há uma outra linha narrativa principal, que é a dos estranhos que arrendam quartos em Green Gables. Logo no primeiro episódio, descobrimos as suas verdadeiras intenções e maneiras de ser. São homens ambiciosos, mentirosos e traiçoeiros que irão aproveitar-se da bondade e da ingenuidade das pessoas de Avonlea.
Para ser sincera, foi uma parte da história um pouco estranha. Começou e terminou rapidamente e não teve um desfecho propriamente dito. No entanto, serviu para ver um outro lado da família de Green Gables e dos habitantes de Avonlea, na medida em que pudemos perceber que são todos capazes de acreditar em tudo e mais alguma coisa por não conseguirem detetar maldade facilmente, se bem que não foi o que aconteceu com Sebastian. Aí, até seria interessante "estudar" a forma como Avonlea recebeu os dois desconhecidos brancos e a maneira como reagiram ao conhecerem Sebastian. Quanto aos dois homens brancos, toda a gente acreditou que eles eram boas pessoas, pois, para a comunidade, os dois não tinham um ar suspeito. Já Sebastian, para eles, tinha um aspeto diferente e, por isso, muita gente foi rude com ele.
Embora esta linha narrativa tenha durado pouco tempo, esta serviu para revelar um lado diferente de Marilla. Ela é, normalmente, uma mulher recatada e simples que não valoriza o seu aspeto e prefere ser austera. Nas suas interações com um dos forasteiros, vimos uma Marilla que pensou que poderia apaixonar-se novamente ou sentir-se bonita. Depois, foi bom ver que, apesar das novas emoções despertadas, o seu raciocínio era claro. Por vezes, parece que gostam de criar mulheres mais velhas que ficam facilmente enamoradas e deixam de ser racionais só porque um homem mais novo pode sentir-se atraído por elas. Não foi o que aconteceu aqui e ainda bem. Marilla não é, afinal, uma mulher ingénua que se deixa enganar por sorrisos.
Quanto a Matthew, um dos seus momentos mais doces foi a sua reunião com um amor da juventude. Nesta temporada, o telespectador percebe como os irmãos acabaram solteiros e a viver juntos. Não foi propriamente uma escolha deles, mas sim uma partida do destino. Foi tão triste, mas, ao mesmo tempo, tão delicioso ver as memórias dos dois quando eram novos e antes de serem vítimas de grandes dores. Foram momentos agridoces, mas essenciais para percebermos melhor Matthew e Marilla. Matthew é tímido por natureza e percebemos isso imediatamente na primeira temporada, mas, na segunda, conhecemos uma pessoa que o ajudava nos momentos mais difíceis, bem como a mulher que ele amava, que é um pouco o oposto dele, mas igualmente simpática e amorosa.
Portanto, foi uma boa temporada para os dois irmãos quanto ao desenvolvimento dos mesmos enquanto personagens.

Ainda sobre Green Gables, foi bom assistir à adaptação de Anne (Amybeth McNulty) à vida de estudante, adaptação essa que foi realizada aos poucos e sem a perda das melhores qualidades da menina, a inocência e a mente cheia de imaginação. Aqui, o tema do bullying é mais desenvolvido. Como está a passar pela adolescência, Anne é vítima nas mãos dos rapazes por não corresponder ao padrão de beleza feminina e à etiqueta social da época. Também é maltratada por algumas meninas, pois ainda acham que ela é muito estranha e que não é uma rapariga "normal" por valorizar imenso os seus próprios direitos e opiniões e querer lutar contra mentes fechadas e retrógradas através da sua imaginação fértil e a sua bondade desconcertante. Não é a dor e a tristeza infligida pelos outros que irá destruir a sua criatividade. Aliás, ela própria e as suas amizades (como Diana, Ruby e Cole, uma personagem nova) continuam a enriquecer a história e a mostrar ao mundo como a arte, principalmente a escrita, é uma das armas mais poderosas do mundo contra a solidão, o ódio e o vazio. Amybeth McNulty, ao conseguir mostrar tudo isto no ecrã, continua, por isso, a ser um dos grandes pontos fortes da série.

Uma outra vítima de bullying é Cole Mackenzie, interpretado por Cory Grüter-Andrew. É um colega de Anne que não tem os mesmos interesses que os outros rapazes, preferindo estar a desenhar no seu canto. Não só é ridicularizado por desenhar, como também é gozado por todos acreditarem que ele é gay. Numa turma tão mesquinha, Cole nunca teve uma oportunidade para, de facto, sentir-se bem entre os outros, até conhecer Anne, que rapidamente gosta do rapaz e quer ser amiga dele. É ela que o faz ver que ele merece viver e fazer parte deste mundo, mesmo que seja um lugar, por vezes, cruel e feio que parece não querer respeitá-lo. É ela que o faz sentir que vale a pena ele ser quem ele realmente é. Tudo fica mais claro quando ele conhece a tia de Diana, Josephine Barry, uma mulher lésbica rica que viveu com o amor da sua vida até ela falecer. E é assim que aparece o sentido de comunidade do grupo LGBTQIA+. Nesta interação, vemos como é fundamental lutar contra a homofobia e respeitar o outro tal como ele é. É, também, importante que aqueles que não se encaixam no padrão cis e heterossexual encontrem alguém como eles. Quando Cole vê um pouco de si na Tia Josephine, ele aceita quem ele é e percebe que pode viver tal como é. É simplesmente perigoso vivermos numa sociedade que não quer aceitar o outro por amar alguém do mesmo sexo e/ou por querer ser quem realmente é e não o que a sociedade diz o que ele deve ser. Cole é um rapaz sonhador e amoroso, mas também uma vítima de um ódio que, contra o qual, mais tarde, consegue combater.



Cory Grüter-Andrew como Cole Mackenzie.
Fonte.


Uma outra grande novidade desta temporada é a chegada de uma professora nova, Muriel Stacy, interpretada por Joanna Douglas. Mrs. Stacy é uma jovem professora viúva que vai para Avonlea para ensinar Anne e os seus colegas depois de o antigo professor abandonar a escola. Os habitantes de Avonlea não a julgam por ser uma mulher que ensina crianças, pois isso não era algo fora do normal. Contudo, não gostam dela por ser muito evoluída relativamente aos seus métodos de ensino e de interação com os alunos. Não gostam de como ela é mais prática, científica e, de certo modo, "rebelde" do que o outro professor. Também não ajuda o facto de ser uma jovem mulher que prefere focar-se na sua carreira e nos seus estudantes do que na procura de um novo pretendente. Apesar das más-línguas, Mrs. Stacy não deixa de apresentar aos seus alunos o progresso e a inovação, assim como também ajuda a desenvolver o pensamento crítico deles.
Ela é, assim, a personagem que representa os bons frutos do feminismo, isto é, é ela que mostra o quão importante é a educação para as raparigas e que é possível construir uma carreira profissional apesar das ideias absurdas da sociedade. É por isso que Anne, imediatamente, cria uma ligação forte com ela, se bem que foi estranha e complicada no início, uma vez que Mrs. Stacy não conhecia bem a personalidade e o histórico familiar de Anne. De qualquer forma, a professora acaba por conhecer melhor Anne e vê nela uma aluna brilhante, enquanto Anne vê Mrs. Stacy como um modelo a seguir relativamente ao seu próprio futuro.



Joanna Douglas interpreta a professora Muriel Stacy.
Fonte.


Em conclusão, a segunda temporada de Anne with an E tem um enredo ainda mais rico e complexo do que o primeiro capítulo da série. Aborda imensos assuntos atuais e importantes de uma forma brilhante e o crescimento das personagens já conhecidas é incrivelmente bem conseguido. Além disso, a introdução das novas personagens também foi feita de uma maneira natural e envolvente. Posto isto, Anne with an E continua a ser uma série encantadora sobre a montanha-russa que é a vida de uma jovem de cabelos ruivos cheia de vida e de imaginação. 



Classificação: 5/5 estrelas.



P.S.: Em breve, a Minotauro, chancela do grupo editorial português Almedina, irá publicar uma nova edição de Anne of Green Gables. Daqui a uns dias, poderão ler uma publicação sobre isso. Agora, queria apenas mostrar-vos a capa de uma edição brasileira de Anne of the Island, o terceiro livro da coleção. Anteriormente, apresentei-vos as capas dos dois primeiros livros, que foram recentemente publicados pela editorial Coerência no Brasil. Esta editora, recentemente, mostrou aos seus leitores brasileiros a capa do terceiro livro:


Grupo Editorial Coerência on Twitter: "ANNE DA ILHA! Confira já a ...
Capa do terceiro livro da coleção de L. M. Montgomery feita por Mirella Santana. Edição do Grupo Editorial Coerência.
Fonte.


Foi inspirada na terceira e última temporada da série. Não é tão bonita?