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Opinião: The Ones We're Meant to Find, de Joan He

Edição australiana de The Ones We're Meant to Find.

 

Em primeiro lugar, quero deixar o meu agradecimento à Text Publishing (editora australiana) e à NetGalley (plataforma de eARCs) por me terem cedido gratuitamente um eARC deste livro. Isto, no entanto, não irá influenciar a minha opinião acerca desta leitura.


Em The Ones We're Meant to Find, de Joan He, duas irmãs, separadas pelo oceano, tentam reencontrar-se a todo o custo.
 
Cee acordou numa ilha abandonada há três anos e não sabe como lá chegou. Agora com 18 anos, ela vive numa cabana com um android e uma única memória: ela tem uma irmã e ela deve escapar para encontrá-la.

Na segurança da eco-city que flutua acima da Terra, agora dizimada por desastres naturais, Kasey, de 16 anos, faz o luto por Cee, que deve estar morta. Ela também quer escapar: a eco-city deveria ser um santuário para as pessoas que querem salvar o planeta, mas os seus habitantes são capazes de tudo para terem um refúgio, até mentir. Estará Kasey pronta para usar a tecnologia para ajudar a Terra, apesar de ter falhado a sua irmã?

Cee e Kasey pensam que se conhecem bem e que o seu mundo é verdadeiro. Ambas estão erradas.



Este livro de Ficção Científica YA é explosivo e cativante e é de uma inteligência tremenda. Abordando temas como o luto, o meio ambiente e a humanidade, este romance distópico irá agradar os fãs de Black Mirror e de ficção distópica no geral.


Em primeiro lugar, o enredo está muito bem conseguido. A primeira metade do livro pode ser um pouco mais lenta, principalmente por causa dos termos científicos e tecnológicos usados. Mas é uma boa base para tudo o que acontece na segunda metade, que é, sem dúvida alguma, a melhor parte do livro. Se a primeira metade foi como uma preparação para algo mais forte, a segunda metade ultrapassou as expetativas criadas nos primeiros capítulos. As reviravoltas não apareceram do nada. Aliás, quando elas acontecem, percebemos logo o porquê e como acontecem e a magia das reviravoltas está aí, ou seja, no facto de a autora ter deixado peças do puzzle pelo caminho de forma tão brilhante ao ponto de conseguirmos uma imagem final arrebatadora. Não há pontas soltas (a não ser o fim relativamente aberto, que é uma jogada inteligente, uma vez que nos faz pensar não só na história em si, mas também no estado do planeta e da humanidade) e não há nada no enredo que nos faça pensar que há demasiada palha. É um enredo forte e bem conseguido que nos faz refletir ao explorar a humanidade e os seus defeitos e qualidades, o meio ambiente e a relação que o ser humano tem com ele, as capacidades da tecnologia e até que ponto usamos o que criamos e se é usada para um bem geral ou para satisfazer desejos egoístas. Enfim, é todo um leque de reflexões e de sentimentos mistos. É, deste modo, um enredo sensacional.
 
 
 
Os dois cenários principais do livro.
Esquerda: a cabana de Cee.
Direita: a eco-city onde Kasey vive.
Artista: Eduardo Vagas.
 

 
A escrita de Joan He é brilhante. É interessante como a história tem tanto a ver com a ciência, a Natureza e a tecnologia, mas a escrita é muito humana e bela, tendo, por vezes, pinceladas poéticas e passagens muito bonitas. Engana-se aquele que pensa que a escrita de um livro de Ficção Científica deve ser mais direta e objetiva. Estamos, afinal, a falar de ficção de qualquer forma. Não haverá poesia e beleza na ciência e na tecnologia? He tem uma escrita muito bonita e cativante. A única coisa não tão boa é o uso extremo de termos técnicos e científicos na primeira metade do livro. Fiquei confusa muitas vezes, mas isso também pode dever-se ao facto de o inglês não ser a minha língua materna e, assim, sentia dificuldade em perceber certas passagens e palavras. De qualquer forma, é uma boa escrita e também dá para ver nisso através dos capítulos, que eram focados alternadamente numa perspetiva de uma das irmãs. Dava para ver claramente que um capítulo era de Cee e o outro era de Kasey. Desta forma, a autora soube adequar o seu estilo à maneira de ser de cada irmã.


As personagens são o ponto forte do livro. São mesmo o meio para atingir o fim do livro, ou seja, são as personagens que dão propósito e alma à história. Cee é divertida e sentimental, apesar de dar demasiado valor à opinião que os outros têm dela, enquanto Kasey é mais racional e objetiva, sentindo que não percebe as outras pessoas. São personagens muito complexas e ricas em traços positivos e negativos, tornando a história mais dinâmica. É com estas duas irmãs que podemos explorar, de formas diferentes, o que é ser-se humano, como pode a tecnologia ser nossa amiga ou inimiga, o que devemos fazer pelo planeta e como devemos encarar esta nossa casa que, todos os dias, é maltratada pelos seus próprios habitantes. Há, ainda, outros temas abordados através destas duas irmãs, como o amor, a amizade, o luto e a moralidade.
Outras personagens que, embora sejam secundárias, têm, também, o seu valor e contribuem para a narrativa e as questões levantadas pelo próprio livro são Hero e Actinium. Hero é um rapaz que, um dia, do nada, surge na ilha de Cee. Sem memórias e sem saber o que faz na ilha, Hero acaba por ser aquele através do qual refletimos sobre o que realmente nos torna humanos. Actinium é um jovem que Kasey conhece quando ela tenta seguir o rasto deixado pela irmã. É através dele que podemos pensar sobre a nossa própria moralidade. Se tivéssemos o poder e a inteligência para ajudar a Humanidade, mas também tivéssemos desejos sombrios próprios, que caminho seguiríamos?
As restantes personagens, que funcionam como ideias gerais, mostram o ser humano no seu melhor e no seu pior. Por um lado, vemos pessoas a fazerem o que podem para arranjarem soluções para problemas graves que afetam toda a população. Por outro lado, temos pessoas extremamente egoístas. E, ainda, temos aqueles que não veem esperança no fundo do túnel e, devido ao egoísmo dos anteriores, sofrem e acabam por ficar corrompidos ao ponto de magoarem outros para poderem salvar a sua própria pele. Tudo isto porque outras pessoas nunca quiseram resolver os problemas mais cedo ou, simplesmente, não queriam resolvê-los.



Personagens do livro.
Esquerda: Hero e Cee.
Centro: Cee e Kasey.
Direita: Kasey e Actinium.
Artista: Paulina Klime.




Em suma, The Ones We're Meant to Find pode ter um início um pouco lento, prejudicado principalmente pelo vocabulário técnico e científico, mas as reviravoltas estonteantes, as  personagens complexas e o enredo cativante são surpreendentes. É não só um livro que nos entretém, como também nos faz questionar sobre o estado atual do planeta e da Humanidade. Joan He é uma autora a seguir.


Classificação: 4.5/5 estrelas.
 
 
O livro será lançado amanhã, dia 4 de maio.
 
 
Avisos de gatilho: Doença terminal; suicídio; violência; morte; morte de parente (não na página); vómito; grande escala de desastres naturais e de baixas em massa; gore.