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Opinião: You've Reached Sam, de Dustin Thao

You've Reached Sam
Bertrand;
Wook;
Blackwell's;
Book Depository.

 

You've Reached Sam, de Dustin Thao, é um romance YA contemporâneo com uma dose de magia sobre a morte, a vida e o luto. Julie, de dezassete anos, tem todo o seu futuro planeado: sair da sua pequena terra com o namorado Sam, ir para a universidade da cidade, passar o verão no Japão. Mas, entretanto, Sam morre. E tudo muda. Desesperada para ouvir a sua voz mais uma vez, Julie faz uma chamada para o telemóvel do Sam para ouvir a mensagem de correio de voz. E Sam atende o telemóvel.

O que farias se tivesses uma segunda oportunidade para dizer adeus?

 

Obrigada, Wednesday Books/St.Martin's Press e NetGalley, pelo eARC deste livro para, em troca, providenciar uma opinião honesta. Este livro foi lançado a 9 de novembro e eu deveria ter publicado a minha opinião um pouco antes dessa data, mas não foi possível. No entanto, finalmente, aqui está ela!

 

Este livro é uma bonita vénia ao amor e um retrato doloroso e tocante do luto. Com uma escrita simples e comovente, uma personagem principal que agarra facilmente o nosso coração e uma história repleta de dor, amor, culpa, nostalgia e confusão, este livro é capaz de fazer escapar, pelo menos, uma lágrima , fazendo-nos refletir sobre o quão breve a vida é e como devemos não só honrar os que partem, mas dar a nós mesmos afeto e mais oportunidades.

 

You've Reached Sam by Dustin Thao || Aesthetics Board | Book wallpaper,  Diverse books, Book bloggerFonte.

 

A história é simples, mas pode não ser o ideal para quem prefere um enredo criado de forma linear. Afinal, estamos perante uma mistura de momentos do presente da protagonista e memórias que ela revive. Contudo, acho que esta junção funcionou muito bem e não ficou confusa. Representa, na realidade, o que fazemos nas nossas vidas quando pensamos nos que já faleceram. Num momento, estamos a trabalhar e, de repente, estamos perdidos numa recordação. Assim, a forma como a narrativa está organizada é nada mais do que a própria vida e como ela funciona. É, claro, uma história extremamente focada nas emoções, sendo, talvez, algo mais passivo. É, ainda assim, agitada na mesma, na medida em que há um enorme conjunto de emoções e pensamentos, desde memórias boas e românticas até situações vazias de esperança e cheias de sofrimento. Sem dúvida alguma que a melhor parte é a forma como são apresentados os vários tipos de luto, desde a tentativa de esquecer tudo até à necessidade de querer continuar a estar com quem partiu. Ainda bem que o autor abordou o modo como as pessoas podem ser cruéis com aquelas que não seguem um processo defendido pela sociedade. Julie preferia não ser muito aberta quanto ao seu luto. Ela não queria ser vista, não queria estar com os outros ou, até mesmo, tentar ajudá-los, uma vez que ela própria não sabia como lidar com o seu próprio desgosto. Por isso, foi muito julgada pelos amigos de Sam, que até praticaram bullying por ela não fazer um luto público. Penso que o livro mostra muito bem que cada um sabe como deve viver o seu luto e passa muito bem essa mensagem. Entretanto, Julie aprende que não precisa estar sozinha e ainda bem que podemos ver essa aprendizagem, mas isso não quer dizer que ela deve mostrar ao mundo inteiro o que sente. O que interessa é que ela sabe com quem pode contar e que pode pedir ajuda. É, então, uma história muito humana.

 

O estilo de escrita de Thao é bonito e enternecedor. Não precisou de palavras caras, nem de excertos exageradamente poéticos e melancólicos para transmitir as suas mensagens, mas também não foi contido e libertou todo o peso das emoções que a história em si carrega, bem como Julie, principalmente. Este é o primeiro livro que publica e dá para ver que está a começar o seu caminho como escritor, mas já tem um estilo com imenso potencial e que promete brilhar ainda mais no futuro.

 

As personagens, por acaso, são o ponto mais fraco deste livro. Embora Julie seja uma personagem muito diversificada e complexa quanto às suas emoções, aos seus pensamentos e ao seu desenvolvimento enquanto pessoa, não posso dizer o mesmo quanto ao restante elenco. Por exemplo, não obtemos muito do Sam, a não ser o que ele diz nas chamadas que faz. Tudo o que sabemos e vemos dele é transmitido pela Julie e conforme a imagem que ela tem dele. A história seria mais rica se tivéssemos as perspetivas de Sam, de um familiar e de um amigo. É demasiado focado na Julie. Claro que ela é a protagonista e é tudo contado segundo a sua perspetiva, mas a história seria mais impactante se outras personagens também pudessem contar como lidam com o seu luto e como viam e veem Sam, não esquecendo a perspetiva de Sam. Julie conhece pessoas novas, fica mais próxima de um grande amigo de Sam e tenta estar mais em contacto com a família do namorado, mas não vemos quase nada sobre essas personagens, o que é uma pena. Teria sido melhor se ela tivesse passado mais tempo com elas e não apenas com Sam, se bem que o facto de ela apenas querer estar com ele seja uma maneira de mostrar como ela queria fazer o seu luto. De qualquer forma, teria sido interessante ver mais de outras personagens, mas Julie é mesmo uma protagonista com uma presença forte e capaz de nos cativar pelas suas imperfeições e emoções, passando por paixões como os livros e pelos seus sonhos e desejos.

 

50debcda09e4d31f34c0eac4db464cfd.jpgFonte.

 

Em suma, variando entre flashbacks, o presente e chamadas de telemóvel, Dustin Thao fez um excelente trabalho na forma como representou o luto e as dúvidas existenciais normais que alguém tão jovem tem quando perde repentinamente alguém que ama. É uma carta de amor ao próprio amor no seu estado mais sombrio e doloroso e, ainda, uma homenagem à nossa condição humana.

 

Gatilhos/Trigger warnings: Morte; luto; morte de um namorado; acidente automóvel; bullying.

 

Classificação: 4/5 estrelas.

 

 

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