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A Biblioteca da Daniela

A Biblioteca da Daniela

Para este novo episódio d'A Batalha das Capas, escolhi analisar 3 capas diferentes do romance YA contemporâneo de Francesca Zappia, Eliza e os seus monstros. Podem ler a minha opinião sobre este livro aqui.


A capa portuguesa é a capa original (as cores do título e do nome da autora são as únicas diferenças, pois, no original, são verdes):


Bertrand.pt - Eliza e os Seus Monstros
Edição da Topseller.


Comentários: A capa é muito bonita e, por ser muito colorida, penso que atrai a atenção das pessoas facilmente. Além disso, apresenta elementos-chave da história, como a arte e as relações que surgem ao longo do livro. Gosto muita da mistura dessas tonalidades de verde e azul. Também acredito que a Topseller fez bem em mudar a cor do título do livro para amarelo, pois, assim, dá mais variedade e vida à capa.

Conclusão: A capa é, de facto, uma pequena obra de arte.



A segunda capa é a da Storia Books, uma editora romena:


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Comentário: Penso que esta capa funciona como um bom exemplo de como uma editora pode manter a essência da edição original e, ao mesmo tempo, fazer algo diferente. Adoro as cores escolhidas e o resultado da combinação delas. Acho que apenas retiraria os desenhos das estrelas, tendo em conta que, na parte do título, já há pontinhos amarelos que fazem lembrar estrelas. Assim, pode haver um excesso de pormenores. Também penso que a capa está demasiado escura.

Conclusão: Uma capa muito bonita que mostra como é possível manter um pouco da capa original e, ao mesmo tempo, ter uma capa diferente.


Por fim, temos a terceira capa, a da Young & Awesome, uma editora holandesa:


39983995 


Comentários: Como é possível criarem uma capa tão pobre para uma história tão rica e complexa como Eliza e os seus monstros? A protagonista é uma artista que até tem um fandom graças à sua webtoon. Poderiam, de facto, colocar a silhueta dela, bem como algo que fizesse lembrar a arte dela, como ela a desenhar as suas personagens no seu quarto, por exemplo. No entanto, decidiram que seria muito mais interessante ter um contorno de uma rapariga, cores demasiado escuras e um fundo qualquer de uma parte do espaço. É verdade que elementos como estrelas e constelações fazem parte da história, mas esta capa é ridícula e simples. Além disso, é quase impossível ler bem o título.

Conclusão: A editora deveria ter vergonha em estragar este livro e arruinar o seu potencial desta forma...


O grande vencedor: A capa da edição portuguesa. Apesar de ter adorado a capa romena, ela não se destaca tanto como esta capa, até porque é uma capa mais escura. A edição romena poderia ser melhor do que a capa portuguesa se tivessem usado de forma moderada o preto e o azul escuro. A capa da edição portuguesa tem o aspeto ideal para atrair a atenção de qualquer leitor.


Por agora, é tudo. O que acham destas capas?





Eliza e os seus monstros é um romance contemporâneo YA que tem como protagonista Eliza, uma artista de webcomics que é conhecida por ter criado Monstrous Sea. Para manter a sua verdadeira identidade em segredo, ela é LadyConstellation na internet. Embora seja muito acarinhada pelos fãs, na vida real, Eliza é uma jovem solitária e invisível. Apenas tem dois amigos online, prefere não falar sobre a escola e quer muito começar a vida universitária. Contudo, depois de, na escola, ter conhecido um grande fã da sua arte, Eliza passa por momentos turbulentos e confusos, passando a questionar imenso sobre a sua vida dupla. 
Será que ela conseguirá manter duas partes de si mesma separadas por muito mais tempo?
 
 
 
 
Este livro aborda assuntos profundos e complicados, como a depressão e a ansiedade, que não são explorados de forma leviana. Na realidade, principalmente nos últimos capítulos, há um grande foco na saúde mental, sendo que eles funcionam como uma chamada de atenção e um momento de sensibilização. Além disso, esta é uma história #ownvoices, ou seja, a autora, tal como a protagonista, tem depressão e ansiedade e, por isso, as experiências de Eliza são, de certa forma, baseadas nas vivências da escritora.


Check Out This Awesome Eliza and Her Monsters Character Art
Fanart.
Fonte.


A protagonista tem problemas que muitos adolescentes têm, como a dificuldade em socializar, o desgosto pelo sistema educativo, a vontade de se tornar numa pessoa adulta e de ser vista como tal, o desejo de seguir um sonho pouco convencional (ser artista), etc. Portanto, é, certamente, uma boa leitura para os jovens.
 
 
 
A escrita de Zappia é simples e extremamente cativante. Demorei apenas dois dias a ler o livro e a escrita era tão boa que eu até queria ter demorado mais uns dias a ler o romance, mas não consegui, uma vez que eu queria sempre consumir mais e mais páginas. É ideal para leitores que tenham mais de 14 ou 15 anos e a escrita é tão refrescante e fascinante que penso que pode ser um primeiro passo para aqueles adolescentes que ainda não sabem o quão boa a literatura pode ser.
 
 
Quanto às personagens, parece que foram criadas por uma adolescente. Quando algumas pessoas dizem que algo é jovial e soa como um adolescente, atribuem sempre uma carga negativa a essas palavras. Contudo, neste caso, estou a ser otimista. A autora entende muito bem a mente do adolescente. Ela própria é jovem, mas não é adolescente. Ainda assim, as suas personagens são verosímeis e cada uma é única e especial à sua maneira. Eliza tem alma de artista, é tímida e aprecia muito a cultura pop. É um exemplo de como é importante perceber o que se passa com a nossa saúde mental para, a partir daí, conseguir resolver alguns problemas e compreender-se um pouco mais. Ela contraria a ideia de que ter depressão e ansiedade é o mesmo que ter algo que nos torna fracos. Ela prova que, com a ajuda certa, dá para lidar com essas situações e viver com depressão e ansiedade.
 
Wallace é um rapaz que não é tão tímido quanto Eliza, mas é parecido com ela por também gostar de cultura pop. Pretendo destacar um aspeto importante desta personagem: ele é o oposto da ideia de bad boy. Acho que temos demasiados romances YA cujas personagens masculinas que, infelizmente, acabam por ser exemplos de masculinidade tóxica. Constantemente, vemos o rapaz a maltratar a rapariga ao ignorá-la, ao gozar com ela e ao enganá-la várias vezes e estas ações são romantizadas. No entanto, ao contrário desses bad boys, Wallace é uma personagem calma que, tal como Eliza, tem ansiedade. É alguém que sabe que enfrenta situações de masculinidade tóxica, como o facto de estar sempre associado ao futebol americano por ser corpulento, mas, na realidade, já não pratica desporto e quer ser escritor profissional no futuro, estando a praticar e a desenvolver a sua escrita através da fanfiction. Da minha parte, esta personagem destaca este livro de tantos outros sobre as experiências na escola secundária e amores da juventude. Wallace funciona como um exemplo positivo para os rapazes adolescentes, na medida em que eles não têm que ter atitudes porque “boys will be boys”. Tal como Wallace, devem responsabilizar-se pelas suas ações e pedir ajuda quando necessitam, não tendo medo de serem vistos como inferiores a outros homens que acham que não devem mostrar os seus sentimentos por isso ser considerado “feminino”. 


Eliza and Wallace Art Print by Chessie Zappia - X-Small
Fanart.
Fonte.


As referências de cultura pop são um outro elemento-chave de um romance YA contemporâneo. Há muitos diálogos sobre banda desenhada, webcomics e filmes neste livro. Os jovens estão sempre a falar e a partilhar ideias e opiniões sobre livros, música, séries televisivas, filmes, etc. Isso é bem explorado neste livro de Zappia. Aliás, ela foi mais longe e centrou a personagem principal nesse ambiente de interesses, criando um fandom, um termo que “tem origem em «fan kingdom», «reino dos fãs». Trata-se de um grupo de seguidores de uma história ou de uma saga existente em livros, séries, filmes ou outro formato”. (Zappia, 2018: 6). Eliza é muito conhecida como LadyConstellation, que criou a webcomic Monstrous Sea. Graças à sua história de ficção científica e às personagens cativantes, Eliza ganhou uma comunidade online devota à sua história, um fandom. Um conceito associado a este é o de fanfiction, isto é, “ […] expressão em inglês que descreve narrativas ficcionais escritas e divulgadas por fãs em plataformas digitais, que têm como ponto de partida a apropriação de personagens e enredos da cultura pop (filmes, séries de TV, BD, jogos de computador, livros, etc.)” (Zappia, 2018: 40). Há todo um universo literário e artístico que, ao estar presente ao longo da leitura, é fascinante para o jovem leitor que adore fandoms e que queira ver-se refletido como o continuador de uma paixão ao escrever fanfictions, por exemplo.

meganjeongwriting:““You found me in a constellation.”“There are monsters in the sea.”Amity and Damien from Eliza and Her Monsters/Monstrous Sea by Francesca Zappia.Prints available here!”Beautiful
Fanart baseada nas personagens da webcomic de Eliza.
Fonte.


Em suma, Eliza e os seus monstros explora imensos temas que são bons e interessantes para os leitores mais jovens, como a amizade, o amor, a família, o sentido de pertença ea cultura pop. Não cai em clichés, como o de bad boys e o de raparigas incapazes. Além disso, Francesca Zappia mostra como há mais coisas na vida do adolescente para além dos amores e desamores, como a saúde mental e o poder e a importância da arte. É um livro exemplar e recomendável para os mais jovens e aqueles que duvidam da literatura jovem adulta.



Classificação: 5/5 estrelas.