Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Biblioteca da Daniela

A Biblioteca da Daniela

No passado domingo, dia 23 de abril, houve muitos eventos para celebrar o Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor. Nesse mesmo dia, eu comprei não um livro, mas dois!


Ambos são contemporâneos e pertencem à categoria de Jovens-Adultos. Além disso, têm sido muito falados nas redes sociais ultimamente por diferentes (mas boas) razões. Por isso, decidi adquiri-los.


Em primeiro lugar, apresento-vos Por treze razões, de Jay Asher. Foi adaptado pela Netflix, que realizou uma minissérie poderosa que tem sido falada em todo o lado. Muitos aplaudem a rede de séries e filmes por ter produzido uma série que aborda temas chocantes de forma realista, como o suicídio. Assim sendo, eu fiquei curiosa e quero ver a série. Mas, antes disso, pretendo ler o livro.



Sinopse retirada do site da Bertrand:

Ao regressar das aulas, Clay Jensen encontrou à porta de casa uma estranha encomenda com o seu nome escrito, mas sem remetente. Ao abri-la descobriu sete cassetes com os lados numerados de um a treze. Graças a um velho leitor de cassetes, Clay é surpreendido pela voz de Hannah Baker, uma adolescente de dezasseis anos que se suicidara duas semanas antes e por quem estivera apaixonado. Na gravação, Hannah explica os treze motivos que a levaram a pôr fim à vida. Guiado pela voz de Hannah, Clay testemunha em primeira mão o seu sofrimento e descobre que os treze motivos correspondem a treze pessoas…


_________________________________________________________________________



De seguida, mostro-vos a segunda e última aquisição, O coração de Simon contra o mundo, de Becky Albertalli. Foi publicado em 2015 e, desde então, muitos leitores espalhados pelo mundo já o leram e adoraram o romance devido não só ao humor e às referências culturais, mas por também ser um livro muito bom com um protagonista homossexual. Acabou de chegar a Portugal e a capa é muito vistosa e engraçada. Estou muito curiosa!



Sinopse retirada do site da Bertrand:


Simon Spier tem 16 anos e os únicos momentos em que se sente ele próprio são vividos atrás do computador.

Quando Simon se esquece de desligar a sessão no computador da escola e os seus emails pessoais ficam expostos a um dos colegas, este ameaça revelar os seus segredos diante de toda a escola. 

Simon vê-se, assim, obrigado a enfrentar as suas emoções e a assumir quem verdadeiramente é perante o mundo inteiro.


_________________________________________________________________________


E vocês? Compraram algum livro no dia 23 de abril?



Fotografia tirada num dia de intenso estudo focado na Sintaxe e Semântica do Português.


Prantos, amores e outros desvarios é uma antologia de Teolinda Gersão que foi publicada este ano, em outubro. Comprei-o porque iria ser feita uma apresentação deste livro cá, em São Miguel, mas acabei por não ir conhecer a autora, pois nesse dia estava esgotada devido à intensidade da vida universitária. Tive pena de não ir, mas li o livro na mesma, claro, e gostei muito da experiência.

O livro tem, ao todo, 14 contos sobre angústias, paixões, loucuras, desgostos, ou seja, tem muitos "prantos, amores e outros desvarios" à mistura.

Para facilitar a escrita da minha opinião, irei falar um pouco sobre cada conto de forma sucinta, até porque, quando falamos em contos, temos que ter cuidado para não dizermos tudo o que se passa na história.


1º conto- "Pranto e riso da noiva assassina": Como entrada desta "refeição" literária deliciosa, temos um conto sobre a morte de um homem provocada pela própria esposa. Ou talvez não? É uma história sobre a impossibilidade de o ser humano controlar o seu próprio destino e sobre a vida como uma inconstante. Retrata, ainda, a insanidade da mulher que, por se sentir frustrada por viver um casamento sem amor, diz ter assassinado o marido. Acabamos por sentir compaixão por ela, mas sabemos que o que ela fez (ou não?) não é o mais correto, mesmo que ela se sinta muito infeliz. É, então, um conto sobre um desvario. 
Classificação: 4/5 estrelas.


2º conto- "Pranto da mãe mentirosa": É-nos apresentada uma mãe que se encontra desesperada ao ver um filho doente e pede a Nossa Senhora que o cure, dizendo que, em troca, daria uma cabra em sua honra. No entanto, ela acaba por não dar nada e o filho morre. É um conto sobre as injustiças e a fragilidade da vida,  e o amor materno, mas também sobre a esperança. É um dos meus contos favoritos, pois tocou-me imenso. É um conto humilde e cheio de dor.
Classificação: 5/5 estrelas.


3º conto- "As mimosas": As mimosas, ou acácias, são árvores que, neste conto, têm um caráter simbólico, por serem bonitas, mas, ao mesmo tempo, eram como uma "ameaça", pois invadiam a casa onde se encontrava Luísa, a personagem principal. É-nos dada a conhecer a vida complicada de Luísa, que tem uma mãe acamada e, por isso, passa grande parte do seu tempo com ela. É uma mulher que, apesar de sentir pena da mãe e querer ajudá-la, sente-se presa a ela. No entanto, rapidamente mudamos de perspetiva, mas não posso contar mais, porque este conto acaba por ser especial por causa dessa mudança repentina. Posso dizer que retrata muito bem a velhice, na medida em que muitos filhos se sentem presos aos seus pais, mas sabem que eles não têm culpa. Pretende-se mostrar que a velhice pode ser triste se a virmos apenas como uma carga de trabalhos. Temos que valorizar os mais velhos, pois, um dia, já cuidaram de nós.
Classificação: 4/5 estrelas.


4º conto- "Detrás dos sonhos": Esta pequena história retrata os problemas que podem ocorrer num matrimónio. Um elemento do casal vive alienado, não dá atenção ao outro e o outro procura amor e refúgio noutro sítio. Ainda assim, o segundo elemento sente pena por ver o amor a desvanecer. Mostras-nos que deveremos dar valor à realidade e não apenas aos sonhos. Também percebemos que, por vezes, é melhor deixarmos o outro partir para não magoarmos a nós mesmos. Por vezes, isso não faz mal, são coisas da vida.
Classificação: 4/5 estrelas.


5º conto- "O meu semelhante": É sobre uma mulher que justifica as suas ações e decisões dizendo que tem uma vida complicada e, por isso, não pode ajudar os outros. É uma história que mostra a sociedade em que nós vivemos. Olhamos demasiado para o nosso umbigo e acabamos por ser rudes e egocêntricos ao vermos o outro em apuros. A lição retirada daqui é que deveríamos viver numa sociedade cujos alicerces deveriam ser a entreajuda e a solidariedade, por exemplo.
Classificação: 4/5 estrelas.


6º conto- "Jogo Bravo": Temos aqui um conto interessante, pois é feita uma comparação entre o ato sexual e um jogo de futebol. Apesar de ter sido estranho para mim ler algo deste género, e também porque foi um tema e uma abordagem inesperados, é um conto que tem a sua graça.
Classificação: 4/5 estrelas.


7º conto- "Uma tarde de Verão": Temos o reencontro de dois ex-amantes, ambos seguiram com as suas vidas, mas sofreram ao longo dos anos. Por um lado, temos uma pessoa que gostaria de reatar a relação, mas por outro temos alguém que prefere não voltar ao passado. É um conto que nos mostra as vicissitudes da vida, isto é, somos seres dependentes da mudança e não faz mal querer continuar a olhar para o passado; porém, não nos podemos esquecer do presente e daquilo que aprendemos com os erros passados.
Classificação: 4/5 estrelas.


8º conto- "Mal-entendidos": Mais uma vez, temos um retrato de como a velhice pode afetar uma família. Neste caso, temos um filho que sempre teve uma relação distante com a mãe, que não o apoiava muito. Mesmo assim, ele ama a mãe e tenta ajudá-la. Contudo, ela não facilita e o estado dela não é a desculpa. É simplesmente a maneira de ser dela. Apesar do assunto representado, foi um dos contos que menos mexeu comigo.
Classificação: 3.5/5 estrelas.


9º conto- "Vizinhas": Este conto comoveu, pois fala de duas vizinhas que tinham laços de amizade muito fortes na juventude, mas tudo mudou quando cada uma constitui a sua própria família. Mas o destino é traquinas e juntou-as novamente na velhice. Ela sentem-se como um fardo para as suas famílias e decidem que o melhor é deixar o mundo, mas juntas. Comoveu-me não só pelo seu caráter triste, mas também porque mostra que a amizade, quando é verdadeira, dura para sempre.
Classificação: 4.5/5 estrelas.


10º conto- "A mulher cabra e a mulher peixe": Aqui temos mais uma história estranha. É narrada por um homem já vivido que, pelos vistos, conta a sua experiência com mulheres a um rapaz. O homem diz que só dois tipos de mulheres é que se destacaram ao longo da vida dele, a mulher cabra e a mulher peixe, e ele explica porque é que as chama assim e faz comparações entre elas. Acaba por ser um conto machista, mas ainda bem que o é, para mostrar como o machismo é que mancha a figura das mulheres e não as próprias mulheres.
Classificação: 3.5/5 estrelas


11º conto- "Água-marinha": Temos outra vez uma mulher com idade um pouco avançada, mas a história não se centra tanto no facto de ela ser idosa. Ela recebe na sua casa um homem que lhe quer entregar um anel que o pai dele tinha consigo. O pai, antes de falecer, pediu-lhe que ele entregasse o anel, o água-marinha, à dona legítima. Depois temos a mulher a falar no anel que, apesar de ter sido barato, o que importou foi que ele simbolizava a beleza do amor entre duas pessoas que viviam o auge da sua juventude. É um conto enternecedor.
Classificação: 4.5/5 estrelas.


12º conto- "Décimo Mandamento": É um conto que retrata a religião vivida de forma extrema. É-nos apresentado um homem que reza muito e castiga-se a si próprio por cometer pecados, mas continua a cometê-los na mesma. Retrata a hipocrisia e a ganância, pois o homem, que é rico, acaba por invejar um mendigo que saboreia alegremente uma costeleta. O rico acaba por, de certa forma, sentir-se invejoso do pobre. Aliás, o décimo mandamento é "não cobiçarás coisas alheias" e ele foi bem reformulado neste conto.
Classificação: 4/5 estrelas.


13º conto- "Enredos": Aqui está um conto que caracteriza bem o povo português, ou, pelo menos, uma parte dele: as pessoas que parecem ter como sustento os enredos. Vemos como a ignorância e o preconceito podem afetar negativamente uma pessoa, na medida em que ela só pensa nos pontos negativos dos outros e só gostar de falar mal dos outros. 
Classificação: 3.5/5 estrelas.

14º conto- "Alice in Thunderland": Este é o meu favorito, pois aborda um lado diferente da verdadeira inspiração de Lewis Carroll (pseudónimo do reverendo anglicano britânico Charles Lutwidge Dodgson) ao escrever Alice's Adventures in Wonderland. Sabe-se que Dodgson tinha atitudes pedófilas e escreveu a história anteriormente mencionada tendo como inspiração uma menina de 11 anos, Alice Lindell. O pior disto tudo é que parece que toda a gente prefere fingir que a obra foi escrita de forma inocente e que nada aconteceu à criança. No entanto, este conto pretende mostrar a verdade nua e crua acerca de Lewis Caroll. Mas não se centra na figura dele, dando importância a Alice. Temos uma perspetiva triste e forte da vítima, uma criança que não percebia o que acontecia sempre que se encontrava com o reverendo, uma jovem que se sentia nojo de si própria, uma mulher que viveu toda a sua vida sabendo que tinha sido a inspiração para um homem doentio e perverso. É, para mim, o conto mais triste e mais realista desta antologia e surpreendeu-me e tocou-me profundamente. Infelizmente, são muitas as crianças que passam por estas situações graves e acabam por ter uma autoestima extremamente baixa e praticamente inexistente, pois pensam que não merecem ser amadas e sentem nojo de si próprias. É um conto que deve ser lido por todos e que nos faz entender que, muitas vezes, a vítima, com uma vida destruída, vê que o culpado nem sempre é visto como um criminoso pela sociedade. É como se o mundo dissesse que a vítima é que cometeu um erro e não a pessoa doentia.
Classificação: 5/5 estrelas. Um conto poderoso.


Em suma, Prantos, amores e desvarios é uma antologia repleta de grandes e valiosas lições de vida e contém histórias muito comoventes. A escrita é simples e cativante, mas também muito madura. Espero ler mais livros de Teolinda Gersão em breve.


Classificação geral: 4/5 estrelas.










Viver depois de ti (no original, Me Before You), de Jojo Moyes, é um romance contemporâneo que aborda temas controversos, mas importantes, como a eutanásia. É um livro que ensina que há mais na vida do que a doença ou uma deficiência, mas também é necessário reconhecermos que nem tudo pode ser um mar de rosas, mesmo que o amor esteja presente nas nossas vidas. Mostra, ainda, que não faz mal sermos pessoas pacatas, mas deveremos, ainda assim, explorar o que nos rodeia. É, então, um romance que mostras as injustiças que podemos enfrentar ao longo da vida, embora também mostre que haverá sempre uma luz no fundo do túnel, mesmo que essa luz não seja o que nós esperávamos alcançar.


O enredo foi muito bem desenvolvido ao longo das páginas. No início, vemos como uma das personagens, Will, acabou por ficar paraplégico. De seguida, mudamos imediatamente de perspetiva e foca-se na outra personagem principal, Louisa, que, ao procurar por um novo emprego, vai parar à casa de Will, onde ela é contratada para cuidar dele. Louisa sempre soube que seria uma experiência complicada, mas decidiu aceitar o emprego na mesma, pois pensava que iria ser gratificante. No entanto, reparamos logo nas disparidades entre duas personalidades tão distintas. Por um lado, temos Will, que se sente frustrado por se sentir preso no seu próprio corpo, por outro temos Louisa, que é desajeitada e tenta sempre ver o lado positivo da vida. A jovem, sempre muito esperançosa, tenta animar Will, organizando programas com atividades ideias para ele, mas Will não tem vontade nenhuma. E é aí que o leitor começa a sentir a mensagem do livro a entrar no seu coração. A autora, neste livro, decidiu mostrar que a eutanásia não é uma decisão tomada de ânimo leve, mas, por vezes, acaba por ser a "melhor" solução, na medida em que o paciente sente que já não está a viver e apenas sente dor. Portanto, não seria melhor ouvir a outra pessoa, aquela que está mesmo a sofrer? Ainda assim... Será que é melhor desistir? Não há esperança? Já não vale a pena lutar se a pessoa em questão já não quiser viver? Louisa fica destroçada ao saber da decisão de Will e faz tudo por tudo para mostrar que a vida dele ainda não acabou. Contudo, será que ela deveria ignorar o que Will realmente quer?


Resultado de imagem para Me Before You gifs
Emilia Clarke como Louisa Clark.

A eutanásia foi, é e sempre será um tema complicado. Muitos defendem que a vida é sagrada e que o ser humano não deveria agir como uma entidade divina. Outros dizem que ainda pode haver felicidade e esperança numa vida limitada. E alguns dizem que, realmente, se a pessoa está a sofrer e sente-se presa, talvez seria melhor reconsiderar a morte como o fim da dor. Deste modo, como sabemos o que será o mais correto? Vale mesmo a pena ouvir somente a opinião daqueles que estão a sofrer? Não estarão eles a serem egoístas? Eu não gosto de pensar assim, até porque esta decisão não é tomada de ânimo leve, como já referi. A pessoa simplesmente sente-se cansada. Moyes retratou bem essa situação. Will era independente, tinha um espírito rebelde e amava a vida, porém, sente-se vazio por estar preso a uma cadeira de rodas. Por sua vez, a autora também fez um excelente trabalho ao criar a perspetiva de quem vive a situação externamente, como Louisa e a família de Will. O pai dele acaba por, de certa forma, aceitar a decisão do filho, mas a mãe, a irmã e Louisa tentam sempre mostrar que a morte não é a resposta. Todavia, Will não quer viver mais. Sente-se saturado e, apesar de amar a sua família e, eventualmente, Louisa, ele já não aguenta mais. É claro que, neste caso, o leitor pensa que o livro tem uma mensagem negativa, ou seja, que, afinal, o amor não ultrapassa qualquer obstáculo, mas também entende que, por vezes, não há explicações possíveis ou armas suficientes para usarmos na luta que é a vida.


Resultado de imagem para Me Before You gifs
Sam Claflin como Will Traynor e Emilia Clarke como Louisa Clark


Mas nem tudo é negro neste livro. Will pode já não querer viver mais, mas quer ver Louisa a ser mais rebelde. Louisa pode ter uma personalidade peculiar e estranha, mas é muito pacata. Talvez seja ela a pessoa que não está realmente a viver. Will, nos seus últimos meses de vida, decide mostrar que Louisa ainda pode brilhar. E a magia do livro centra-se nisso mesmo: um homem que perdeu a esperança na vida e quer mostrar a outra pessoa que a vida pode ser bela. É por isso que Will decide recorrer à eutanásia. Ele está contente com a vida que teve e não quer manchar a sua existência por causa da sua dependência física. Para uma pessoa que não se sinta limitada, a decisão de Will pode parecer catastrófica, mas será mesmo? Afinal, quem sabe realmente o que é melhor para a nossa própria vida? Will teve uma boa vida e Louisa ainda não viveu o suficiente. Ambos aprendem muito um com o outro e chegam a uma conclusão: sim, a vida pode ser bonita e alegre, mas também pode fazer-nos sofrer. No entanto, no fim, tudo vale a pena.



Para não me alongar mais, quero só dizer que a escrita da autora é simples e leve e, por isso, ideal para abordar um tema tão sensível e complicado como a eutanásia. Porém, apesar da escrita e do tema debatido de forma cuidada, acabei a leitura sem lágrimas. Eu senti o que as personagens sentiram, mas ainda faltou qualquer coisa. Como disse, o tema foi, de facto, debatido, mas não tanto quanto queria. Mas entendo que a autora se tenha centrado mais nos modos de vida de cada personagem e não apenas no assunto em si. Aliás, ao termos duas perspetivas diferentes, temos uma história mais rica que nos poderá fazer refletir mais e a mensagem está lá na mesa.


Concluindo, Viver depois de ti vai mexer com a alma de qualquer leitor e fá-lo-á pensar. O melhor a fazer é viver a vida ao máximo, mas também seria bom ouvirmos a opinião do outro, pois cada um sabe como encara a vida. 


Resultado de imagem para Me Before You gifs
Gif com cenas da adaptação cinematográfica do romance de Jojo Moyes.

Classificação: 4/5 estrelas







A Quimera de Praga (título original: Daughter of Smoke and Bone) é o primeiro livro da trilogia de Fantasia Entre Mundos (o título original da trilogia é o mesmo que o título do primeiro volume), de Laini Taylor. Neste primeiro capítulo, a personagem principal, Karou, é introduzida como uma jovem estudante de arte que aparenta ter uma vida relativamente normal em Praga, capital da República Checa. Muitos pensam que os seus cadernos recheados de desenhos de criaturas espantosas e estranhas são fruto da imaginação dela, mas o que eles não sabem é que Karou tem uma vida que é tudo, menos normal. As criaturas que ela desenha, as Quimeras, existem mesmo e são a família adotiva dela. Apesar de eles serem seres híbridos (misturas de partes humanas e partes animais), Karou ama-os e respeita-os imenso, principalmente Brimstone, o dono da loja onde vive a família de Quimeras. A jovem realiza várias demandas em nome de Brimstone (apesar de não saber praticamente nada sobre o mundo destas criaturas)  e, uma vez, ao regressar de uma das suas muitas viagens em busca de dentes de animais para serem vendidos na loja, Karou percebe que algo de errado se passa quando vê uma marca de mão queimada na porta da loja. A partir daí, a sua vida mudou por completo.

Fanart retirada do Tumblr. Aqui podem ver Karou e Brimstone.


Muitos dirão que, pela sinopse, a história não parece ser muito original. Afinal, há muitos livros de Fantasia sobre criaturas esquisitas que conhecem uma pessoa perfeitamente normal que irá mudar, de alguma forma, o mundo delas. No entanto, isso não acontece aqui. Neste romance de estreia de Taylor, temos uma vastidão de seres surpreendentes e fascinantes que apresentam detalhes assombrosos. A autora criou um mundo extremamente original e excecional que tem uma certa aura mística, lendária. É um ambiente em que, por um lado, temos humanos que não se apercebem da existência desta outra realidade mágica e, por outro lado, temos um mundo no qual vivem dois grupos distintos e rivais, as Quimeras e os Serafins, que, desde há muito tempo, travam uma guerra violenta e sangrenta, na qual a magia que cada grupo possui (que não tem nada a ver com varinhas ou sombras coloridas que saem das mãos) deve ser usada de forma responsável. As Quimeras e os poderes mágicos que elas possuem são, para mim, os aspetos mais interessantes de toda a obra e deixaram-me deslumbrada. Por isso, penso que o ponto forte deste romance Fantástico é a construção deste mundo mágico que, certamente, irá surpreender o leitor.



Mas a construção tão bem realizada deste mundo fabuloso não teria sido possível sem a escrita de Laini Taylor, que combina muito bem com o universo criado. Atrevo-me a dizer que a autora tem um estilo levemente poético, que lhe permite elaborar descrições ricas em detalhes deliciosos. Mesmo nos momentos de maior tensão, o estilo dela faz-nos refletir sobre o que é ser-se humano e como é que as ações nos podem definir. Faz-nos ler, ler, ler e ansiar por mais. A sua escrita é cativante e tocante e permite-nos ir mais longe na nossa imaginação.


Por fim, temos as personagens que, apesar de terem personalidades muito distintas e de serem capazes de nos seduzirem pelos seus mistérios e segredos, ficaram um pouco aquém das expetativas. Karou, a protagonista, foi muito bem esboçada, na medida em que ela tem bom humor, é enigmática (devido aos seus desenhos peculiares, ao seu cabelo azul e às bugigangas estranhas que lhe ornamentam) e tem, de facto, uma alma de artista, ou seja, ela vive intensamente através do desenho. Contudo, ela também tem um lado mais irritante, por ser muito "senhora do seu nariz" e querer fazer tudo à sua maneira, mas é isso que lhe confere complexidade e autenticidade. Já Akiva, um Serafim pelo qual ela se apaixona, não foi tão bem explorado como a protagonista, já que, no subplano da história (a relação amorosa repentina entre ele e Karou) acabou por ofuscar o anjo como personagem. Ainda assim, nem tudo está perdido, pois ainda há muito por desvendar em relação a Akiva. As poucas Quimeras que fizeram parte do enredo, como Brimstone, também poderiam ter aparecido mais, mas, mesmo assim, gostei dos poucos momentos de intervenção destas criaturas fenomenais. Assim sendo, acredito que Taylor irá deixar estas personagens brilharem mais nos próximos volumes, até porque é normal ficarmos com a ideia de que o primeiro livro carece de alguma coisa.


Fanart.


Concluindo, aconselho a leitura deste primeiro capítulo de uma trilogia que promete arrebatar o coração dos leitores de imaginação mais fértil. É um primeiro volume repleto de magia, emoção, mágoa e esperança, bem como de criaturas deslumbrantes. Espero ler o segundo livro em breve.


Classificação: 4.5/5 estrelas